sábado, 15 de novembro de 2014

Juízo Final

Na ilustração de Gustave Doré para A Divina Comedia de Dante Alighieri, os pecadores aparecem punidos pelos sacos de dinheiro que têm que empurrar para cima e para baixo para pagar suas faltas. Não seria de todo ruim se essa modalidade de pena fosse aplicada aos executivos das empreiteiras e da Petrobrás que estão sendo presos desde ontem pelo país afora.
Tenho um pouco de pena desse tal Sérgio Moro, juiz federal do Paraná que está encarregado, junto com outros dois ministros do STF, dos processos da Lava Jato. Nas mãos dele estão não só as ações penais contra os acusados, mas também - o que é mais delicado - os casos de envolvidos que não têm foro privilegiado - "doleiros, ex-funcionários da Petrobrás, executivos e empresas", como diz a Folha. É sobre esse moço que vão se desencadear pressões de toda a ordem para que a gang dos comuns não fique sequer uma semana presa em decorrência da operação Juízo Final, que é o codinome que os próprios policiais deram às ações da PF desencadeadas ontem.

Os indícios de que isso pode mesmo acontecer são muitos e já eram esperados: advogados de peso, assessores de imprensa, boards que com a maior cara de pau declaram que "as empresas estão colaborando com a Polícia Federal" e que "as prisões não têm justificativa legal e são arbitrárias". O que chama a atenção, no entanto, é a notícia do Estadão segundo a qual "governistas e oposicionistas" que integram a CPI mista da Petrobrás já fecharam acordo para "poupar as empreiteiras", ou seja, há um complô no âmbito do Legislativo para aliviar as evidências que, possivelmente pela primeira vez na história do Brasil, deixam exposto o poder paralelo que os interesses privados instituíram no país.

Esse deve ser o pior efeito, pelo menos o mais corrosivo, do princípio da "governabilidade" de que o PT lançou mão desde a posse de Lula.  Como diz a música: "tudo o que mais nos uniu, separou". 

Aí é que está. O jornaleiro da esquina da minha rua, matreiro como só ele, carregou no aforismo logo cedo, assim que me aproximei da banca: "professor, blindagem tem prazo de vencimento, não esquece". Enigma difícil, mas arrisco a pensar que o homem pode ter se referido aos executivos cabisbaixos das fotos de 1a. página. Ou terá sido à Dilma? Sei não se as eleições fossem hoje...

* Escarnio e prepotência em meio à gravidade dos fatos: Alvos da Lava Jato se entregaram de jatinho, fizeram cooper e frequentaram Fasano, Um sistema que protege corruptos e corruptores (Estadão) e PF lança nova fase da Lava Jato e Justiça bloqueia R$ 720 milhões (Valor Econômico)
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