sábado, 22 de novembro de 2014

Ministro, Vossa Excelência está querendo dizer que não tem jeito?

As distinções sociais são incontornáveis e os vícios que elas provocam também: não há o que fazer porque as coisas são como são e só nos resta lamentar... Será mesmo assim?
(na foto, Paulo Gracindo e Brandão Filho no humorístico dos primos pobre e rico, sucesso sarcástico, mordaz e irreverente da Tv brasileira)
O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, acaba de naturalizar a corrupção atribuindo-a a uma espécie de endogenia cultural que forma o caráter brasileiro. Em palestra que proferiu na Associação dos Magistrados (AMB), Cardozo referiu-se a uma suposta "cultura social" que dilui a distinção entre "o público e o privado" através de práticas que descem ao cotidiano da sociedade inteira, embora muitos dos que se beneficiem com elas sejam críticos dessas próprias práticas. Para o ministro, "a classe política é reflexo da sociedade". Nem Pelé diria com tanta clareza. 

Pois então... dos desmandos das empreiteiras e dos funcionários corrompidos por elas ao síndico de um prédio (foi o tipo social escolhido por Cardozo para exemplificar o que disse) que procura levar algum trocado na encomenda de um capacho, estamos diante de um pecado original, como foram designadas em outros tempos a preguiça, a malandragem, a ginga... enfim, toda a galeria de lugares comuns e vulgares com que temos sido definidos por nós próprios ao longo da nossa história. Que um ministro de Estado, da pasta da Justiça, mande esse recado para a sociedade, é de amargar!

Com todo o respeito, tomo a liberdade de recomendar a S. Exa. que leia Os donos do poder do saudoso Raymundo Faoro, obra clássica da nossa historiografia (weberiana, é bom que se diga), para que compreenda melhor que esses escândalos todos e essa incompetência generalizada que nos atormenta a vida, são construções das relações de poder estamental nos diversos momentos da nossa história, poder esse do qual as empreiteiras, festejadas por seu capitalismo selvagem e expropriador do Estado, são exemplo. Não há nisso nada de intrínseco e inapelavelmente cultural, como V. Exa. deixou entender, salvo que eu não tenha comprendido o que foi exposto pelo ministro na AMB. São práticas políticas que só podem ser compreendidas e combatidas nesse âmbito. Fora dele, a palestra de V. Exa. nos deixa prostrados e sem esperanças... É isto o que o senhor quis dizer, que não tem jeito, que estamos condenados a ser até o fim dos tempos esse bando de oportunistas e batedores de carteira bem apessoados? Ora, faça-me o favor senhor ministro...

* Para os frequentadores do blog, duas matérias que estão relacionadas ao tema: A Lei Anticorrupção aqui e agora (artigo de Modesto Carvalhosa no Estadão) e Empresa atingida pela Lava Jato ameaça demitir ml operários sem pagar (Época Negócios).
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