sábado, 21 de fevereiro de 2015

Fausto e as empreiteiras...

Fausto, gravura de Rembrandt de 1652. 
No final das contas, tudo se resume a esse acerto de contas com a obsessão pelo absoluto: o poder desmedido que acaba sendo punido pela nêmesis. Nossa operação Lava Jato, apesar de cabocla como é, reproduz um pouco esses mitos da cultura universal...  

Fausto, gravura de Rembrandt de 1652
No final das contas, tudo se resume a esse acerto de contas com a obsessão pelo absoluto: o poder desmedido que acaba sendo punido pela nêmesis. Nossa operação Lava Jato, apesar de cabocla como é, reproduz um pouco esses mitos da cultura universal...

Estou impressionado com os rumos que o escândalo que envolve a fina-flor da facção das empreiteiras vai tomando. Confesso que o assunto começa a se tornar cansativo, mas os ingredientes novos que os jornais apresentam todos os dias cobram outras interpretações. As novidades de ontem são duas - além das pouco convincentes (muito pouco, aliás) explicações do ministro Cardozo: a fatura que a facção das empresas quer cobrar de Lula e a chantagem que elas fazem agora com demissões de trabalhadores e paralisação das obras.

Qual é a novidade dessas duas referências? Simples: os governos de Lula e Dilma (que eu insisto em qualificar como dois dos maiores avanços na história política recente do país) imaginaram que poderiam escrever a história como bem entendessem? Imaginaram que, em algum momento, não teriam sobre si a contrapartida dessa convivência promíscua com o poder econômico e com o que há de pior na política brasileira - os lobbies empresariais, midiáticos, políticos? Pois me parece que é isso o que está acontecendo agora. 

Diz a matéria do Estadão que a empreiteira UTC perdeu um pouco da compostura quando conversou com Paulo Okamotto, sócio de Lula: a empresa, que doou R$ 21,7 milhões "para campanhas do PT" e R$ 7,5 milhões só para a reeleição de Dilma, queria "orientação" do ex-presidente para safar-se da encrenca em que se meteu (vale a pena ler o relato dramático que culmina com a orientação dada ao empresário para que procurasse "alguém do governo"). Pera lá: R$ 21,7 milhões só de uma empresa? Alguém pode acreditar que esses "trocados" não são um compromisso tácito que, em algum momento, não seria cobrado? 

A outra novidade inscrita nos jornais de ontem é a da ameaça de demissões de trabalhadores e de paralisação das obras. Se minha leitura não estiver equivocada, interpreto esses itens como exigências insinuadas de pagamento de um resgate, pois que demissões de trabalhadores e suspensão de obras estão talvez entre as principais prioridades da estabilidade social e econômica do país. Mas essa é a contrapartida pela ousadia que o Juiz Sérgio Moro revela em escarafunchar os desmandos que a facção das empreiteiras teria (o condicional é forçoso, visto que o inquérito ainda não está concluído) cometido contra o patrimônio nacional ao privatizar suas relações com o Estado e ao transformar os recursos da sociedade em instrumento de enriquecimento (leia aqui a análise do El País sobre as dimensões políticas do escândalo da Lava Jato)

Diz o mesmo jornal que o Ministério Público cobra das empresas envolvidas na Lava Jato a devolução aos cofres públicos de R$ 4,47 bilhões (governo quer evitar isso, claro: como eu disse no twitter, se virar filme, as manobras ensaiadas pelo governo para evitar que as investigações sigam até o fim ganha o Oscar do milênio).

Minha impressão é a de que esse valor pode perfeitamente voltar ao Tesouro Nacional pela via da estatização dessas empreiteiras e, com isso, preservar-se não só a manutenção de todos os trabalhadores em suas atividades, mas também a continuidade das obras.

Eis aí um bom motivo - e um bom momento - para que o governo do PT volte às origens de seus compromissos sociais - que é a fonte última do poder que imaginam possuir. 

Na lenda do Fausto, a megalomania do cientista para obter o conhecimento absoluto na negociação que faz com Mefisto não chega a ser punida com a danação eterna como o senso comum interpretou a história, mas recuperada como símbolo da razão e do Iluminismo. Acho que Lula, Dilma, Cardozo poderiam tentar ir por aí... antes que a casa toda caia.

* As referências usadas nesta postagem sobre a tragédia Fausto foram consultadas em Fausto: a busca pelo absoluto, de autoria da Profa. Eloá Heise (revista Cult).
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