quarta-feira, 11 de março de 2015

Governabilidade: a matriz da crise

O princípio da governabilidade - inspirado na tradição conciliadora da política brasileira - alimenta isso que a escultura (Guardiões do Tempo) procura representar: o simulacro das práticas políticas, naturalmente em benefício das facções do empresariado. Dilma precisa romper com essa turma. 

Governabilidade é o novo nome da prática da conciliação na política brasileira. É princípio arraigado na herança que a República herdou do Império e que se reproduz indefinidamente nos acertos pessoais, partidários e governamentais dos quais a sociedade é vítima. Digo vítima porque a conciliação/governabilidade descaracteriza projetos e esvazia todos os discursos; deixa o país sem rumo...

O maior exemplo disso na história recente do Brasil me parece ter sido a tal Carta ao Povo Brasileiro com a qual Lula, em 2002, acenou aos empresários e à classe média com a promessa - fielmente cumprida - de que os contratos seriam respeitados. Contratos, neste caso, é um eufemismo. O que Lula e o PT quiseram dizer, no fundo, foi que nenhuma ruptura com a velha ordem herdada da conciliação que nos tirou da ditadura em 1985 seria promovida, ainda que, em sua origem, candidato e partido tenham consolidado sua presença na cena política brasileira pela originalidade e distinção de extração socialista de sua história.

Nada disso valeu então e os desdobramentos do governo Lula nessa linha do tempo que nos traz agora à crise do governo Dilma são os que estamos vendo: os interesses privados formando a plataforma ideológica conservadora que não vê motivos para que não se complete aquele que sempre foi o propósito de banqueiros, latifundiários, empresários de todos os tipos e a tecnocracia ilustrada e consumista que porta um nível de preconceito talvez o mais radical da época contemporânea: extirpar o reformismo social da cena política. A coisa aqui é bem pior que na Venezuela.

Dilma é vítima desse embróglio: perdeu a base que a levou ao poder e à reeleição quando, em nome da governabilidade e da conciliação com os interesses das classes dominantes, abdicou do projeto - ainda que tímido - com o qual fez a campanha eleitoral de 2014. 

Penso que este talvez tenha sido o equívoco fatal que a presidente e toda a sua entourage cometeram: assegurar à sociedade um projeto que parcela significativa da própria sociedade não quer. No final das contas, essa manobra à direita da política de austeridade misturada com desoneração, afago aos bancos e às grandes empreiteiras etc etc... criou para a presidente uma crise de representação que pode muito bem ser resumida naquilo que Laclau chama de significante vazio. Em outras palavras: Dilma não está governando para ninguém e isso a torna vulnerável por todos os lados.

Um quadro de descontrole grave como esse só se supera, penso, com uma nova aliança - que resgate a identidade do governo com suas bases sociais originais de apoio, com a implementação de reformas sociais profundas, com a ampliação da presença do Estado na economia e com o isolamento dos interesses privados. Essa é a governabilidade que Dilma precisa buscar.

Leia também: * Quatro hipóteses sobre um discurso desastroso * A espúria aliança da governabilidade e o fracasso do projeto nacional
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