quinta-feira, 19 de março de 2015

Transido

Par de Sapatos, obra de 1886. Conta a história que Van Gogh comprou o par num mercado de pulgas e usou-o até que ficasse transido, isto é, imprestável, passado - de tal forma tinha ficado inútil para aquilo que  um par de sapatos foi feito.
Pode acontecer a mesma coisa com os governos e até mesmo com as pessoas.
Não sei exatamente em qual livro de Nelson Werneck Sodré me deparei pela primeira vez com o termo transido. Deve ter sido no Razões da Independência, uma das melhores obras desse historiador autodidata, general do exército identificado com as causas populares, cassado depois do golpe de 64 e mal-dito (do ponto de vista científico) na academia de extração uspiana por sua ortodoxia marxista. Werneck usava o adjetivo transido para explicar o quadro de deterioração e de fragilidade política - e de tibieza moral - quando descrevia o comportamento decadente da aristrocracia portuguesa entre os séculos 18 e 19 - momento em que a soberania do país é rifada pelos interesses ingleses que acabam por alojar a corte no Brasil. Posso estar enganado, mas vejo esse momento como o pior da história portuguesa e acho que o país esteve a ponto de desaparecer, tal foi o seu aniquilamento político e institucional.

Por que transido? Porque transido significa dominado por sentimento de medo, em pânico, apavorado, inseguro, desmoralizado, inerte perante o pavor - causas da fragilidade da vontade. Um país transido, um governo transido, uma pessoa transida... em todos esses casos um quadro de deterioração psicológica que bloqueia a ação. 

Digo tudo isso porque ao ler o noticiário que detalha o desenrolar dos acontecimentos que precederam a queda do ministro Cid Gomes ontem, me dei conta de que estamos assistindo a uma manifestação riquíssima em transidez (nem sei se o termo existe) transparente e límpida nas ações do governo, especialmente a forma abjeta como se deu essa humilhação da presidente Dilma sob a arrogância de Eduardo Cunha. O afobamento humilhante do ministro Mercadante em informar a demissão de Gomes à presidência da Câmara vai para os anais como um dos momentos mais tristes da história brasileira. Um país transido é isso...

Vale a pena acompanhar os lances desse colapso: * Dilma mandou avisar a Cunha que demitiria Cid se ele não decidisse sair * Saída de Cid Gomes mostra governo Dilma esfarelando 
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