domingo, 5 de abril de 2015

Consignados

O crédito consignado para os aposentados é talvez o mais perverso exemplo das políticas sociais postas em práticas no Brasil na última década. É a delícia dos bancos - que têm nessa modalidade de empréstimo a garantia de inadimplência zero -, mas é também um dos mecanismos mais angustiantes dos seus tomadores, já que eles penhoram parte de seus benefícios no pagamento compulsório e inapelável da dívida, tanto faz o quanto lhe resta para sobreviver.

Levando em conta a penúria da maioria dos aposentados e diante desses apelos irracionais do mercado, deixar entrar na armadilha do consignado é quase impossível; sair dela, mais difícil. Como diz uma de suas vítimas, "troco de banco e vou financiando" - uma vez que a soma que sacou do banco para "despesas diárias" não pode ser paga e deve ser "rolada" indefinidamente.

Quando escreveu A morte do caixeiro viajante, em 1949, Arthur Miller pensou no pesadelo em que se transformou o sonho americano - a promessa da afluência social em troca da disciplina moral no mundo do trabalho... No Brasil da modernização acelerada que nos fez um país de "emergentes", nem a dramaturgia conseguiu captar a secura da realidade, embora a área econômica do governo festeje sistematicamente, todos os dias, o "êxito" dos bancos, o sucesso do capital financeiro, o crescimento do consumo... como num país de ilotas modernos.

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