domingo, 17 de maio de 2015

Ao Deus dará...

Precarizado, pejotizado ou o quer que seja: desregulamentação da mão de obra é a maior violência que os empresários praticam contra a sociedade brasileira.
O Estadão deste domingo recorre a mais uma dessas armadilhas discursivas da grade mídia. Em matéria de destaque no seu portal, o jornal afirma, pelo menos no título, que em um ano "868 mil brasileiros" passaram a trabalhar por conta própria e, com isso, evitaram que o desemprego subisse ainda mais. Aos próprios jornalistas que assinam a reportagem, no entanto, não faltou a sensibilidade de adiantar que esse deslocamento da mão de obra para a informalidade representou ingresso em atividades mais precárias de ocupação,  "serviços por conta própria, normalmente mais voláteis, imprevisíveis e com menor remuneração".

Deve ser a isso a que se refere a facção dos empresários quando se esgarça na defesa do projeto sobre a terceirização que já passou pela Câmara, ou seja, no lugar da formalidade, a categoria dos trabalhadores precarizados que vivem "ao Deus dará" em termos de garantias sociais e financeiras.

O que falta dizer - nem a FIESP, nem o Estadão, nem qualquer órgão da imprensa tradicional se manifestam a respeito disso - é que a instabilidade nas ocupações "por conta própria", normalmente registradas sob o rótulo do empreendedorismo, é muito maior que no emprego formal, além da pauperização do custo da mão de obra. O mesmo Estadão, em outra matéria recente, revela que a explosão no número de falências ocorrido em abril foi puxado pelo fechamento de micros e pequenas empresas - justamente o segmento que atrai o pessoal do "ao Deus dará". 

Não é à toa que viceja no mercado um tipo sinistro de especialização: as empresas que adquirem o que o eufemismo econômico chama de "recuperações", uma espécie de salvados do incêndio da concorrência predatória que está estabelecida no mercado há bastante tempo e que ganha dimensões ainda maiores agora diante da política de austeridade posta em prática por Dilma. 

Sugiro a leitura: * Para OIT, terceirização representa reduzir direitos * Trabalho é valor, não é mercadoria * O PL 4330 e a acumulação flexivel * O que a terceirização provocou na Grã-Bretanha?  * Artigos do dossiê da Boitempo sobre a manobra dos empresários na Câmara dos Deputados que acabou com os direitos trabalhistas no Brasil e entrevista de Marilane Teixeira, no site IHU, sobre a vida infernal dos prestadores de serviçosVeja ainda o vídeo Terceirizado, um trabalhador brasileiro
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