sábado, 23 de maio de 2015

Como bom menino, Brasil faz a lição de casa direitinho e ganha elogios do FMI

O tamanho do ajuste orçamentário que o governo Dilma anunciou - alguma coisa em torno de 70 bilhões de reais - joga o país na recessão, com todas as consequências sociais e econômicas dramáticas e perversas que o mundo inteiro está cansado de experimentar. Em nome de quê exatamente? Em nome de uma suposta disciplina financeira que nos torna mais atraentes para a especulação internacional. É uma política criminosa que faz regredir o Brasil à condição de quintal colonizado do grande capital.

Para quem duvida disso e imagina que essa é uma avaliação "ideológica", é suficiente ler os elogios que a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, se apressou em fazer às medidas de "ajuste" do governo, nem bem tinham sido inteiramente anunciadas. Para ela, "a austeridade macroeconômica brasileira vai na direção correta". Leia-se por "direção correta" a estagnação dos investimentos, a retração da renda e do poder de compra dos salários, a queda na oferta de empregos, a míngua de recursos que passam a viver setores estratégicos e socialmente importantes como infraestrutura, saúde, produção científica, educação, habitação...

Desde 2008, quando explodiu a crise sob a qual ainda vivemos e que foi provocada pelo descontrole do capital financeiro, economistas de todas as partes, mais comprometidos com a regulação do capital e com o desenvolvimento social, têm condenado as políticas de austeridade postas em prática pelos países de menor consistência econômica estrutural (leia aqui o que o Prêmio Nobel de Economia Paul Krugman dizia sobre isso em 2013)

Não deu certo na Grécia, não deu certo na Espanha, não deu certo em Portugal, não deu certo na Itália, não deu certo em parte alguma dos países dependentes; nem mesmo na Inglaterra, que não é exatamente o figurino de um país periférico, a coisa funcionou; e aqueles que conseguiram escapar da crise foram justamente os que não adotaram as mesmas práticas: Estados Unidos, França e Alemanha. É como diz o ditado: faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço. Só a Islândia, que se recusou a aplicar a receita do FMI, saiu-se bem. Na condição de bobo da classe, o Brasil segue à risca sua condição de enclave colonial e vai, submisso e complacente, para o fundo do poço. 

Para que se tenha uma ideia da dimensão equivocada e irresponsável dessa política financeira, basta lembrar que, em 2014, o montante da desoneração com a qual a gestão anterior de Dilma presenteou os empresários (sem que se verificasse um único sinal positivo em decorrência desse esforço, exceto o aumento desmedido de suas margens de lucro) foi de 120 bilhões de reais, 50 bilhões a mais do que o pacote de austeridade lançado ontem. 

Lamento que esteja sendo o PT o partido promotor dessas práticas, justamente ele que já vem combalido pela perda de sua identidade social e programática. 

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2 comentários:

nelsonlcarlini disse...

Caro Faro
A atual crise de gerenciamento das contas públicas brasileiras nada tem a ver com a crise global e sim com a incompetencia e descolamento da realidade de seus dirigentes. Sei que sempre voltamos ao dilema, o ovo e a galinha, mas cientes dos ciclos do mercado de comodities, seus altos e baixos, não poderia um administrador consciente apostar as fichas num " mar de rosas eterno". Há que haver controle de receitas e despesas, não se pode financiar todos os sonhos acreditando num manancial de recursos provenientes de um saco sem fundo. A procura de um algoz externo é simples escapismo de irresponsáveis.
Há anos, desde que esta celerada assumiu, tenta o "mercado" (este ente odiado por certas facções), alertar para o descontrole. Se tivessem reagido e adotado a parcimonia na administracão, desde 2010, e não pensado apenas na permanência no poder, poderia nossa Administração Federal estar em melhor condição de equilibrio e sem a necessidade destes ajustes execrados. Portugal, Espanha e Italia, Grecia vade retro, são paises que não são parametros para nossa Patria pujante, são economias maduras, com expansão mediocre, marginal, sem novos recursos a explorar senão inovação e tecnologia, que escolheram o caminho do " descanso dos habitantes" a custa do Erário, obviamente um caminho para o abismo! O Brasil não é aquilo, o Brasil tem condições internas de superar qualquer desafio, tem fronteiras agricolas novas, tem gente ávida por saber e por trabalho, mas falha no planejamento, na priorização dos objetivos, no que deve ser alcançado no curto, médio e longo prazo, na visão de consolidação de conquistas. Não olhem para a Islândia, vítima de especulação financeira de seus dirigentes regionais, entraram numa espiral de lançamentos de bonds internacionalmente verdadeiras Merposas, que explodiram ! Paisinho de 3 milhões de habitantes, menor que a grande Porto Alegre.
O Brasil é muito maior, mais complexo e com muito mais oportunidades, triste vê-lo em mãos incompetentes, meros dirigentes estudantis, vivendo na puberdade , irresponsável.

Ailton Fernandes disse...

Caro Faro concordo em parte contigo e lamento e condeno o ajuste fiscal realizado em áreas tão sensíveis como a educação, saúde e de melhorias urbanas. Melhor seria se voltássemos os olhos para as grandes fortunas, para a taxação de heranças e de uma reforma fiscal que não atacasse os pobres. Só uma ressalva no seu post: França, Alemanha e EUA são centros do capitalismo mundial e são nesses centros que as regras são criadas. Precisamos fugir dessa lógica e criar de fato uma identidade nacional, não apenas cultural mas, sobretudo, econômica.