domingo, 10 de maio de 2015

Lá vem a Globo...

A partir de 11 de maio, a verdadeira protagonista da novela da Globo é a comunidade de Paraisópolis e seus 100 mil habitantes: o sonho da emergência acabou?

As informações publicitárias disponíveis sobre a novela da Globo que estreia agorinha no dia 11 de maio - I love Paraisópolis - falam sobre o anonimato de seus personagens, nenhum deles transformado nesse arquetípico herói suburbano para quem as determinações sociais são coisa de intelectual. Na nova trama, o protagonismo é o meio, isto é, a própria favela e seus 100 mil habitantes. Eu duvido que toda a competência que a Globo mostra na teledramaturgia consiga isso, a começar pela construção midiatizada dos seus personagens - todos eles representados pelo elenco estelar da emissora e todos de uma erotização sem tamanho.

Mas é interessante acompanhar como é que a narrativa da novela vai dar conta do desafio de colocar o social sobre a construção mítica do indivíduo, sem que um anule o outro. Tenho certeza de que não demora muito e o pessoal dos mestrados e doutorados em Comunicação terá um prato cheio para comprovar - ou não - essa hipótese. Seja como for, é possível que venha por aí um recado: esgotado o processo de emergência arrivista das classes D e E, ameaçada a suposta estabilidade conseguida pelas classes C (nem tanto) e B, vai ver que chegou a hora da promoção de um certo olhar para dentro da realidade que a faz mais forte que o sonho do consumo, como o próprio título da novela insinua: I love Paraisópolis. Um imaginário que pode ser traduzido como não quero outra vida e não troco meu barraco por shopping nenhum.

Vamos ver. Até que essa coisa seja esclarecida (em novela a proposta do enredo e a metodologia de sua abordagem são sempre mutantes) permanece o enigma: a Globo desce sua atenção para as audiências de baixa renda e, através disso, recupera a credibilidade e o prestígio que há muito tempo vem tentando recuperar ou é a teledramaturgia que absorve a realidade e fala sobre o Brasil emergente que vai colapsando ladeira abaixo?

Sugiro a leitura: * Paraisópolis real espera benefício da ficção (Estadão)
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