domingo, 10 de maio de 2015

Professor, a profissão principal

Idealização do ato de ensinar corresponde mesmo ao prestígio social do professor, apesar de tudo...

Tenho em mãos a excelente entrevista que o pedagogo Philippe Meirieu concedeu ao suplemento Aliás, do Estadão, sobre o papel que o professor tem na sociedade contemporânea. O tema tem muita atualidade para os brasileiros e deve ter sido pautado em razão da grande repercussão que as greves de professores em diversos estados ganhou, principalmente depois da repressão imbecil que o governador Richa autorizou (e endossou) contra os mestres no Paraná semana passada.

A entrevista avança sobre várias questões, mas seu ponto culminante me parece ser o momento em que o repórter indaga do entrevistado sobre o deslocamento ocorrido no interior da escola da autoridade intelectual do professor para a autoridade administrativa do gestor. Meirieu é categórico: a "corrida" em busca de resultados tornou secundária (e eventualmente inexistente) a percepção de que os eixos nucleares da escola são o ensino e a aprendizagem.

Aí está o pior efeito da ideologia da privatização da escola, não propriamente no sentido da sua transformação em empresa, mas o envolvimento das práticas escolares pela racionalidade tecno-burocrática empresarial - que se estendeu também ao setor do ensino público. No caso do Brasil - que desde Anísio Teixeira não sabe o que é um projeto educacional voltado para o desenvolvimento pleno da sociedade - esse deslocamento do ensino para o reinado das planilhas gerenciais não afetou apenas a carreira docente em todos os níveis (vista como fator de custo), mas a prática docente, vista como um elemento envolvido por padrões de eficácia funcional. Nesse sentido, a ideologia da racionalidade instrumental não fez qualquer distinção entre o docente da rede pública e o das escolas particulares.

Vem justamente dos impulsos corporativos dos professores dos dois setores a resistência - possivelmente a única - a esse processo. Talvez o país inteiro devesse parar junto com os movimentos grevistas dos mestres e exigir que as coisas sejam postas nos devidos lugares e que os professores estejam em destaque na pauta principal da sociedade.

Sugiro a leitura: * Humilhar professor pode. Sufocar e ferir nãoProfessores no Brasil estão entre os mais mal pagos em ranking internacional * A elite brasileira é burra * A escola e o supermercado dos prazeres * Por um novo professor, capaz de transformar a escola * Escolas transformam crianças em adultos medíocres
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