quarta-feira, 5 de agosto de 2015

A perversidade do ENEM

A perversidade do Enem é a consagração do ensino privado. Talvez mais que isso: trata-se de métrica de rendimento escolar que é, guardadas as nuances sutis, reprodutora linear da renda e do tamanho das mensalidades pagas pelas classes A e B.

Dessa forma, o exame - que é valorizado pelo gigantismo de sua operacionalidade mais do que pelos efeitos positivos que poderia ter na qualidade do ensino - constituiu-se numa farsa pedagógica e cria entre as escolas, da mesma forma que entre os alunos, o mercado das virtudes da competição, com perdas simbólicas irreparáveis para os que ficam inapelavelmente nos pelotões de trás e com forte lustro mercadológico para as empresas que conseguiram empacotar melhor seu produto. Na minha opinião, a filosofia que orienta e legitima isso - mesmo com a criação de mecanismos que procuram identificar a prática das escolas que criam turmas artificiais de alunos maquiados para o exame -, essa filosofia é criminosa. 

Vale a pena ler as notícias do Estadão que falam sobre os resultados do exame, especialmente aquelas que explicitam as disparidades sociais de todo o sistema: apenas 7 escolas públicas entre os 100 "melhores" e, mesmo assim, instituições que atuam fora da órbita administrativa do sistema escolar tradicional. Outra pérola: a diferença entre escolas particulares e públicas só diminui quando a condição social dos estudantes se aproxima. Outra ainda: o nível econômico do aluno reponde por 75% do seu rendimento. No limite, vale a pena ler o artigo de Mário Magalhães no UOL: Turmas especiais, só com melhores alunos, fazem ranking do Enem ser ilusão.

Como é que os educadores brasileiros aceitam que se construa esse simulacro de avaliação em seu nome?

Leia também: * Enem da pior escola rica é quase igual ao da melhor escola pobre (Folha) * Escolas que 'não existem' representam 80% das primeiros lugares no Enem (Estadão).
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