sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Bancos de dados enriquecem a informação, mas podem empobrecer a notícia...


Critérios de identificação do valor noticioso em meio
ao caos informativo podem evitar que o deslumbramento
 com os dados aprofunde a crise do jornalismo
O desafio é saber onde está a notícia, 
não onde estão os dados

Assisti dia desses à exposição de um jornalista que entende da mais nova coqueluche dos estudos de jornalismo: as bases de dados que alimentam a informação. Dito assim, sem mais, a frase é de uma simplificação horrível, mas espremendo bem o que ela pretende dizer, tem toda a lógica dos argumentos formais: diante do crescimento exponencial do acúmulo de informações permitido pelos arquivos digitais (em nuvens globais ou mesmo "fisicamente" no hardware pessoal), a administração da informação, seu manuseio estatístico, a possibilidade meta de múltiplas relações que ela permite, pega em cheio quem tem nela (na informação) o elemento estruturante do seu trabalho. Daí, portanto, esse deslocamento estratégico que estamos assistindo no terreno das funções que estão sendo atingidas pelo fenômeno.

Tenho minhas dúvidas sobre a generalização dessas conclusões, que me parecem meio óbvias. Explico o motivo da minha reticência: o volume de dados tomado como uma medida cuja importância é imanente à sua existência me parece contrariar sua natureza objetiva, isto é, a dimensão quantitativa (no sentido vulgar) tomada como valor que se põe acima da sua dimensão qualitativa, acaba por ignorar os critérios de seleção que devem presidir o uso dos dados. Naturalmente, isso não é verdade para todos os setores. Se sou um gerente de banco e quero saber qual foi o volume de depósitos que ocorreu no dia de ontem em todo o sistema financeiro internacional todo o dado relativo a esse fato será importante. O motivo é simples: o significado do fato se esgota aqui na sua própria existência.

Coisa bem diferente é o tratamento dos dados que precisam ser levados em conta na sua dimensão relacional, ou seja, qualitativa, pois aí reside sua importância: o papel que o big data pode ter na produção da síntese operacional que é feita. Trocando em miúdos: se o critério do valor noticioso não atravessar de forma competente a massa de informações, o risco é o dasua absoluta inutilidade pública.

Na verdade, em qualquer circunstância é assim, mas no caso do Jornalismo, que atravessa uma forte crise de identidade nos tempos recentes,  a possibilidade de que os dados possam se transformar no próprio conteúdo das matérias tem virado uma prática muito frequente nos grandes jornais - com o risco de se confundir com uma praga, uma coisa que já produz um discurso virtuoso de modernidade e de sintonia com a novidade da técnica, possivelmente enredando o profissional com uma suposta intimidade com áreas profissionais que nada tem a ver com ele - como é o caso da engenharia. No limite, se a moda pega, engenheiros podem perfeitamente ocupar o lugar dos repórteres, por que não?

Tenho colecionado exemplos dessa deformidade que o jornalismo de dados - em especial, as bases de meta dados - vai aos poucos provocando nos veículos. Hoje mesmo, o portal do jornal O Estado de S. Paulo, estampa em manchete: Brasil fecha 1,24 milhão de vagas de emprego formal em um anoComo a linha fina que acompanha a matéria fala de um outro enfoque do mesmo assunto, o leitor fica sem saber se o dado preciso é importante porque é bom ou é importante porque não é bom. Afinal, 1,24 milhão é pouco, é muito? Um ano é tempo suficiente ou insuficiente para o fechamento de 1,24 milhão de vagas? É um bom exemplo para se observar como o número adquire uma função que não ajuda na sua suposta objetividade, muito menos o repórter... e ajuda menos ainda - o que é grave - na função pública da notícia: a final de contas, por que aquilo está sendo dito.

Penso que vale a pena acompanhar o distúrbio narrativo que o modismo do jornalismo de dados provoca no jornalismo, mas em especial por uma razão que me parece escapar de uma mera metodologia operacional. Refiro-me ao fato de que é preciso resgatar o papel nuclear que o critério noticioso tem sobre a massa de informações disponíveis. Sem isso, ou seja, sem a intervenção analítica e contextual do profissional da imprensa, a pirotecnia tecnológica pode não ser muito mais do que um exercício descritivo do real - e me parece que o Jornalismo não é isso.

Para uma discussão mais detalhada em torno do tema, sugiro a leitura do artigo de Marcelo Träsel, Aprendendo a se deixar guiar por dados (Rebej, 2014) e dos textos 21 tendências que estão mudando o jornalismo (Observatório da Imprensa), O desafio da sobrevivência num mundo tecnológico (Observatório da Imprensa), Não é preciso ser matemático para ser especialista em big data (El País), A necessidade do conhecimento em investigação jornalística de precisão (Paula Melani Rocha e Gislene Barão da Silva).
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