quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Como é que se explica isso?

Como num quadro surrealista, as imagens da realidade têm uma significação paradoxal
as coisas não "batem" entre si. Essa é uma analogia possível de ser feita com o malabarismo do pensamento brasileiro neoconservador que imagina um país moderno sem os atributos da modernidade

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso está assustado e quase em pânico com a notícia de que o Estatuto do Desarmamento está em vias de ser revogado na Câmara dos Deputados e até já gravou um vídeo em que pede aos parlamentares que impeçam essa possibilidade quando a decisão final for a plenário. "Como é que vamos agora derrubar este estatuto e permitir que pessoas, até criminosos, tenham legitimamente, armas? Isso é um escândalo", diz FHC (leia a matéria e veja o vídeo aqui). É claro que o descontrole do ex-presidente é basicamente midiático, mas é possível admitir que a decisão da Câmara (ainda que parcial) faça parte do vendaval neoconservador que está desarticulando os itens da sociabilidade moderna que o país vinha construindo até recentemente; e, neste caso, o arrepio provocado pelo atraso afeta mais gente do que se imagina.

A reação de FHC, no entanto, é contraditória pois parte desse impulso revisionista das práticas culturais pertinentes  à contemporaneidade brasileira e se deve justamente à reação ao aprofundamento das mudanças, atitude que tem no próprio ex-presidente uma espécie de guru. Em outras palavras, tudo se passa como se a negociação que as elites são chamadas a fazer com os itens da modernidade seja sempre "seletiva e negociada com os inacabados processos de modernização"(1): algumas coisas podem mudar, outras não, em especial aquelas que se localizam no território dos padrões de comportamento. A sociedade pode ser moderna, mas não necessariamente os atributos do moderno devem se estender para todo o conjunto de suas práticas, pois que é nesse terreno que se institui a ordem simbólica que estrutura o poder do neoconservadorismo (continue a leitura).
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