quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Catilinárias: a História como farsa

Cunha: cinismo e bandidagem na versão brasileira
de Catilina
Eu também - imagino que da mesma forma que muita gente - corri atrás do significado do nome fantasia que a Polícia Federal colocou na operação que desencadeou o mais ousado avanço sobre o que parece ser o núcleo institucional da corrupção no Brasil. Percorri o Google, a Wikipedia, os jornais e até mesmo algumas anotações que ainda mantenho das aulas de Literatura frequentadas no colegial. Encontrei a chave da explicação no texto de Juan Arias, o cronista político da edição brasileira do jornal El País. Diz o jornalista:

Cícero foi uma peça chave contra Catilina, o senador populista, com vocação de ditador, ansioso por acumular todo o poder se valendo dos plebeus a quem tentava perdoar todas as dívidas. Desmascarou-o com a força das suas famosas Catilinárias, cujo eco permanece vivo na História de hoje. Com sua oratória, o senador e escritor derrotou Catilina, que precisou ir embora de Roma, refugiando-se em Pistoia, e cujos sequazes acabaram vencidos e dispersados. As primeiras palavras da mais famosa das Catilinárias, “Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?”, foi uma pergunta gritada no plenário do Senado Romano contra seu adversário. Incriminou-o assim:
“Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda há de zombar de nós a tua loucura? A que extremos se há de precipitar a tua audácia desenfreada? (….) Nem os temores do povo, nem a confluência dos homens honestos, neste local protegido do Senado, nem a expressão do voto destas pessoas, nada consegue te perturbar? Não percebes que teus planos foram descobertos? Não vês que tua conspiração foi dominada pelos que a conhecem? Quem, entre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, onde estiveste, a quem convocaste, que deliberações foram as tuas?"
Tudo indica que está aí a razão do refinamento intelectual da ação policial. O que parece improvável aparentemente é a existência, no âmbito de qualquer um dos três poderes, de uma personalidade como Cícero (ou algum partido que não seja tão oportunista quanto os que estão aí) que reúna em torno do seu discurso a indignação nacional e ofereça à sociedade uma saída democrática - e não messiânica ou totalitária - para a profundidade da crise. Esse é o motivo pelo qual agora, mais do que antes, penso que a ruptura com essa reincidência diária do escândalo está no fortalecimento da presidente Dilma - a única pessoa contra a qual não há um único sinal de envolvimento com a desordem do Estado e nem uma única referência que manche seu passado de coerência e dignidade. Ou são os facínoras do PMDB, do PSDB ou de qualquer outro partido, inclusive parcela do PT, que estão em condições de assumir esse papel? Alguém confiaria o governo a qualquer um dos pulhas que lideram a oposição? Querem deixar o Brasil nas mãos do Paulo Skaf para ver o que acontece? 

Leia ainda: * A política brasileira com as vísceras expostas (Moisés Pinto Neto) * Eduardo Cunha: definição de cínico (Antonio J. Barca) * Polícia Federal cumpre mandato de busca e apreensão na casa de Cunha - atualizado às 12h53 (Valor).

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