terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Dívida pública: o que o noticiário não diz nem os jornais explicam

Tão feio quanto lhe parece, mas pode não ser
(Velhos tomando sopa, de Goya)
Está na capa do site do jornal Valor Econômico: Dívida Pública Federal sobe 21,7% e soma quase R$ 2,8 tri em 2015. É uma manchete inescapável, no sentido que produz e na significação que tem para os leitores. São atributos que remetem à noção rasteira segundo a qual esse peso do Estado - representado pelo tamanho da dívida pública - é a mãe de todos os nossos males. Aliás, como todo o texto da matéria é um elenco insuportável de cifras que se espalham por outros jornais, a coisa tem jeito de uma reiteração sistemática e organizada. Sei não...

No final das contas, qualquer que seja a especialidade do leitor, a lógica daquilo que está escrito é imanente e acaba resultando num valor político que se agrega ao valor aparentemente positivo e insofismável que dos números têm nessa cultura.

É um mau jornalismo esse. Reflete uma tendência que hoje está presente em todas as editorias - a fetichização das quantidades, das proporções e dos percentuais - como se o conteúdo noticioso das matérias se confundisse com sua dimensão factual. Se um time perdeu 43,5% das chances que teve de marcar gols numa partida, está aí, nessa simplicidade inócua, todo o segredo do jornalismo de dados, mais ou menos a mesma coisa em relação à dívida pública que aumentou 21,7% em 2015, totalizando incríveis R$ 2,8 trilhões de reais. É muito, é pouco, há algum grau de comparabilidade que possa qualificar os números apresentados no texto? O quanto essa numerária esclarece ou não esclarece o leitor?

Neste caso específico do volume de recursos financeiros que oneram o Estado através da dívida pública, me parece que dois contextos precisam ser obrigatoriamente constituídos para que a dimensão social da notícia seja alcançada. Um primeiro contexto é o da causalidade racional do fato.

Num país de fraca acumulação capitalista e que tem à frente de suas práticas empresariais uma burguesia anêmica e provinciana - mais preocupada em burlar direitos e em lucrar no nível da ganância - corresponde ao Estado o papel de indutor e de promotor dos investimentos. Sem que cumpra essa função - que lhe dá a definição de desenvolvimentista - o Brasil estaria ainda vivendo o estágio da economia agrário-exportadora da era colonial. Aliás, no agro-negócio há muita semelhança entre um período e outro.

Essa é uma dimensão estrutural da dívida pública e gigantescamente estrutural pois que o valor de R$ 2,8 trilhões indicados na matéria, levando em conta as grandezas do quadro econômico e social de um país como o nosso, é até pequena. E um aumento anual dessa dívida em 21,7% pode perfeitamente ser relativizado frente a outras demandas. Onde isso tudo aparece no noticiário?

O segundo contexto é um círculo que envolve o condicionamento político da dívida pública pelo qual seus próprios beneficiários são culpados: o diabólico sistema de desonerações fiscais e de subsídios de todo o tipo que o governo põe à disposição dos empresários imaginando que com isso vai tirá-los da letargia e do parasitismo em que estão acostumados a viver desde sempre. As matérias indicadas abaixo dão bem a dimensão do problema, mas é suficiente emoldurá-lo: cumprimos todos os anos a liturgia de transferir da sociedade para as mãos privadas da nossa burguesia uma soma estratosférica de recursos e o nome disso é dívida pública.

Os impostos que a precária inteligência da Fiesp quer pagar a menos são o tiro no pé dos próprios empresários. E isso nem o Sr. Paulo Skaf tem coragem de dizer (talvez nem mesmo saiba do que estamos falando) nem os jornais dizem, preocupados como estão em construir textos pobres de entendimento e ricos em espetacularização. 

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