quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Democracias de baixa densidade

Pietà Rondinini, 
de Michelangelo (*)

Pergunta. Por que é aceitável socialmente que o morador de periferia tenha um tratamento injusto nas mãos do Estado?



Resposta. Tem uma coisa que é típica de democracias de baixa densidade, sem consolidação, comum em países muito desiguais e com forte herança autoritária, que é o caso do Brasil. Existe uma modulação da percepção de ilegalidade. Não é a violação em si que causa espanto à sociedade, é a qualidade da vítima. É mais ou menos assim: conforme a hierarquia social da vítima me causa mais ou menos espanto a violação do direito dela. Ou melhor, identifico como violação de direito na medida em que a pessoa tem uma posição social mais alta. Se ela tem uma posição social mais baixa, não identifico como uma violação de direito.

* Trecho da entrevista feita pelo repórter Gil Alessi, do El País, com a Defensora Pública do Estado de São Paulo, Daniela Skoromov, sobre o "regime de impunidade" que prevalece nos processos em que são policiais os acusados de execução.

* Para entender o contexto da entrevista, sugiro a leitura destas duas matérias (de autoria do mesmo jornalista): * Justiça ignora evidências para inocentar PMs matadores * As duas mortes de Edson: nas mãos da PM e na caneta do promotor.

(*) A certa altura da apresentação da obra, os responsáveis pelo museu onde a escultura está exposta, em Milão, afirmam que  Michelângelo, em seu último trabalho, reduziu toda a figuração da cena ao essencial: o significado da dor expresso nos traços duros da pedra. Ao ler a entrevista da mãe de uma das vítimas das execuções, foi o que me veio à memória.
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