quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

O petróleo era nosso

Depois de ter se transformado no símbolo da dignidade 
nacional na luta contra o imperialismo, a Petrobras 
tornou-se uma das maiores empresas do mundo.  Se a sociedade não a defender, seu patrimônio vai para as mãos de predadores.

Foi a revista Carta Capital que me parece ter definido melhor as circunstâncias que acabaram levando à decisão tomada ontem pelo Senado a respeito do fim exclusividade da Petrobras na extração das jazidas do pré-sal. Segundo a revista (leia aqui), o governo - mais uma vez em troca da sua frágil sustentação política e da ilusão da governabilidade - amenizou sua oposição ao projeto do senador José Serra e deixou claro a Renan Calheiros "que não entraria no debate público do projeto nem trabalharia contra sua aprovação". Baixando a guarda - como parece que de fato baixou a julgar pelo relato do que aconteceu em Brasília ontem -, o caminho ficou aberto para uma das mais graves violências contra os interesses nacionais cometidas na história brasileira: uma rachadura - difícil de ser recuperada - no monopólio estatal do petróleo.

As diversas interpretações que podem explicar o recuo de Dilma Rousseff diante de uma questão dessa ordem é muito grande e vão desde a prática chantagista que Renan Calheiros adota nas suas relações com o Planalto até a pequena política municipal do Estado do Rio - que imagina que a partir de agora crescem as possibilidades de arrecadação de tributos com o aumento da extração do pré-sal -, mas quem deu mesmo o tom do significado do que foi aprovado pelo Senado foi o presidente da Shell, Ben van Beurden, dois dias antes do ippon aplicado por Renan à presidente: em "visita" ao Brasil, como se estivesse supervisionando a subserviência com que brasileiros se apressam em leiloar nossos interesses, o Ceo não teve o menor prurido em abrir o jogo: "a presidente não precisa que eu lembre que esse setor é muito importante para o Brasil e que é uma fonte de receita importante ter investidores como nós..." (leia aqui).

Terá sido uma coincidência a Moody's - uma agência de classificação que decide para onde devem se dirigir os fluxos do capital especulativo global - ter divulgado o forte rebaixamento da nota de risco da Petrobras simultaneamente à votação do projeto de Serra e favorecendo a percepção de que a estatal está precisando de recursos externos?

O fato concreto é que o Brasil está sendo leiloado a torno e a direito. A revista Exame, por exemplo estampa na capa de sua edição de fevereiro uma manchete de nos deixar ruborizados e de cabeça baixa - O Brasil à venda (e bem baratinho). O presidente da GM, semana passada, colocou o dedo em riste e sentenciou acintosamente: ou vocês (brasileiros) superam a crise política e econômica ou suspendemos os investimentos previstos até 2019. E por aí a fora.

A Petrobras é um desses instrumentos de Estado (mais que de governo) que mesclam a simbologia do poder nacional à luta pela independência econômica e pela soberania do país sobre seus próprios recursos. A decisão tomada pelos senadores não acaba com esse capital de que dispomos, mas deixa clara a proximidade a que chegamos de uma dissolução coletiva da vontade política de resistência. Ontem é que era o dia do panelaço.

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