domingo, 20 de março de 2016

Homens cordiais

Mesma etnia, possivelmente a mesma extração social,
mas nenhum solidarismo: a crise que estamos
vivendo pôs à mostra o que se esconde
por trás dos nossos ritos afáveis de sociabilidade
 e ficamos surpresos com os titãs
 que andam soltos por aí (foto do Estadão)
Tem muita gente lendo o Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, em busca de uma explicação que nos ajude a entender esse novo país que está nas ruas se esmurrando. Nossas elites tiram proveito disso e se o golpe der certo elas ainda vão se divertir recordando os episódios em que a manipulação dos instintos básicos da luta de classes acabou favorecendo seu projeto de dominação.

Mas Sérgio Buarque nunca disse o que dizem que ele disse; aliás, disse o oposto. Lá pelas tantas, depois de recordar que "a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade - daremos ao mundo o 'homem cordial', o historiador complementa: "A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro", mas, se são heranças do patriarcalismo rural, de um lado, por outro pode ser enganoso "supor que essas virtudes possam significar 'boas maneiras', civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante", para concluir:

Nenhum povo está mais distante dessa noção ritualista da vida do que o brasileiro.
Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da polidez.
Ela pode iludir na aparência - e  isso se explica pelo fato de a atitude polida consistir precisamente
em uma espécie de mímica deliberada de manifestações que são espontâneas no 'homem cordial'. [Mas] detém-se na parte exterior, epidérmica do indivíduo (...) Equivale a um disfarce..." (p.107)

Eis aí, portanto, uma boa reflexão que nos ajuda a entender a natureza tensionada das práticas da democracia, espaço de acirramento que me parece estar sendo ocupado por essa burguesia meia-boca que não aguenta sequer imaginar que vai dividir alguma coisa do bolo da sua ostentação com a imensa maioria dos brasileiros. É a construção identitária que ela faz de sua ideologia o que nos está revelando...

* Leia também O debate político faz a chapa esquentar, matéria do Estadão na qual, além do péssimo título que não diz coisa alguma, o autor do artigo se confunde todo com a tentativa de explicar as cenas de primarismo político que as facções da direita instituiram nas manifestações dos últimos dias.
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Um comentário:

Tahia Sarapo disse...

meu comentário vai já com o texto de Fabio de Oliveira Ribeiro ,pessoa digna,advogado e um indignado contumaz.Escreve para o GGn
http://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/sobre-as-vaias-da-elite-bestial