domingo, 16 de abril de 2017

A substância do crime: 17 de abril de 2016, o dia da vergonha nacional

O discurso de Temer é cínico e insincero. Não fossem os motivos que se acumulam para que saia do lugar onde está, em especial a agressão que ele e seus cúmplice promovem contra os direitos sociais, bastariam essas duas virtudes para justificar o grande movimento popular que se avizinha com a greve geral de 28 de abril e que pode vingar a vergonha que passamos há um ano.  Sobre a entrevista de Temer no vídeo acima, veja também a matéria do Uol: Dilma usará entrevista de Temer para contestar legalidade do impeachment. Aliás, a deslealdade entre os golpistas é tamanha, que o própro Cunha já afirmou que o parecer do impeachment foi conferido por Temer antes de que o processo fosse aberto (leia aqui).

A postagem abaixo da triste imagem de Jair Bolsonaro foi feita em 17 de abril de 2016. Tenho dito aos meus alunos que se fosse possível indicar um ponto de inflexão da honra nacional, seria essa a data escolhida, o momento em que - agora já se sabe - uma quadrilha de mal-feitores articulou o controle do Poder Legislativo sob a manipulação do facínora Eduardo Cunha com os interesses empresariais e da grande mídia para o golpe do afastamento da presidente eleita Dilma Rousseff. O resultado foi o que se viu nesses 12 meses: um país inteiro sendo assaltado pelo mesmo grupo, agora sob o comando de Temer, um sujeito de péssimo caráter e de moral corroída pelos crimes dos quais é acusado.

Dia 28 de abril de 2017 pode muito bem ser o reverso dessa história. Torço para que o povo tome as ruas e resgate o país em suas mãos. Em tempo: não deixe de assistir ao documentário francês sobre o golpe - Brasil: o grande salto para trás - postado na matéria do sitie Brasil 247.

O deputado Jair Bolsonaro no momento em que fazia sua declaração de voto a favor do golpe contra a presidente Dilma Rousseff, sessão da Câmara Federal de 17 de abril de 2016

A substância do crime não advém apenas do fato de que ele tenha sido cometido; sua essência vem também do fato de que ele tenha sido desejado e que continue a sê-lo, mesmo depois de ter sido cometido. Essa me parece ser a lógica da psicopatia e de todo o conjunto de implicações que ela traz consigo, ainda que disfarçada de justificativa ideológica ou coisa que o valha. 

Foi essa substância que a sociedade brasileira não soube erradicar da sua vivência política quando caiu a ditadura; foi esse o resultado do espírito de conciliação que arrefeceu o impulso de mudar o Brasil, tirá-lo em definitivo das mãos das elites, dos empresários e dos conservadores de todos os tipos que viveram na sombra dos militares, inclusive com a conivência com o que se passava nos porões. Nem a Comissão da Verdade conseguiu passar essa história a limpo.

Na Argentina, no Chile, no Uruguai, na Espanha, em Portugal - para citar alguns países que viveram sob ditaduras cruéis e sanguinárias - é inimaginável que alguém venha a público louvar torturadores e espezinhar sobre suas vítimas. Embora nem todas as contas estejam acertadas com o passado, são sociedades que se orgulham de rejeitar a mancha que cobriu parte de sua história, e continuam fazendo o possível para apagá-la. No Brasil, infelizmente isso não acontece. 

Não é o afastamento de Dilma o que me incomoda; o que me incomoda é o constrangimento provocado pela forma como ele foi justificado e aprovado nesta etapa da Câmara: o recurso à pura substância do crime, mesmo por parte dos que não o praticaram. Não há ajuste fiscal para isso e o Sr. Temer, um epígono de última hora do que há de pior na política brasileira, é capaz de arrastar consigo, para o governo, essa ofensa que nos atinge e nos envergonha.

Leia mais: * A radiografia do dia mais humilhante da História do Brasil (Sprinklr* A escada de Bolsonaro para 2018 (El País) * Em memórias delas, as mulheres assassinadas pela homenagem de Bolsonaro (GGN) * Um retrato do torturador Ustra, segundo suas vítimas (El País) * Dilma: "É terrível homenagear o maior torturador do Brasil" (El País) * Entidades cobram punição de Bolsonaro (Boitempo) * Problemas com o espelho? (Mauro Iasi, Boitempo) * Instituto Vladimir Herzog pede que deputados expulsem Bolsonaro (Estadão) * FHC pede que PSDB repudie fala de Bolsonaro sobre torurador (Estadão) * Setor de direitos humanos cobra Temer por Bolsonaro (Estadão) * Por que escrachamos Jair Bolsonaro (Brasil 247) * Parlamentares vão à PGR contra Bolsonaro por 'apologia à tortura' (Folha) * Cinco partidos e Instituto Vladimir Herzog vão à Procuradoria contra Bolsonaro (Estadão).
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