domingo, 22 de maio de 2016

Leituras indispensáveis... reflexões difíceis...

Chian Tsun Hsiung
Qual é a cara que as medidas tomadas por Temer até agora têm? O observador menos atento dirá que a fisionomia da interinidade é errática e improvisada, e é natural que seja assim, na hipótese de que o golpe contra Dilma tenha sido um fato imprevisto, isto é, levou a um ajuste governamental de urgência. Se fosse isso...

Mas parece que não é exatamente assim. O perfil da gestão interina de Temer é o de uma bem planejada desmontagem não propriamente do aparelho de governo - pois que isso já tinha acontecido quando Dilma ainda estava lá - mas a desmontagem do aparelho estatal. Explico o que entendo por isso.

Os grupos que apostaram no golpe do impeachment têm uma visão estratégica de seus interesses e alimentam um projeto que vem sendo acalentado desde o fim do regime militar: a mudança nas estruturas do poder devem ser feitas de tal forma que, mesmo sobre o ônus da convivência aparentemente democrática com a diversidade política do país, é preciso instituir um regime de diretrizes econômicas e sociais fechado, extremamente controlado pela casta que concentra a riqueza nacional, alguma coisa não muito superior a 5% da população, se tanto.

A desmontagem acelerada do Estado que estamos assistindo nas últimas duas semanas evidencia isso. Do ponto de vista do historiador que observa o cenário de longa duração do processo de modernização burguesa que o Brasil vive desde a Revolução de 30, a etapa de agora pode muito bem passar para a História como uma reação termidoriana(*) ao Populismo distributivista com o qual nossa elite foi obrigada a conviver desde então, sem o dispêndio das práticas conciliatórias que sempre representam, de alguma forma, o adiamento do projeto inteiro. Agora, não; agora parece que os dirigentes desse processo têm a intenção de concluir a obra inteiramente (continue a leitura).

(*) Devo a um texto longínquo do jornalista Fernando Pedreira o conceito de reação termidoriana com o qual ele procurava designar o processo conservador global que se seguiu a 1968 e que, no Brasil, veio junto com o recrudescimento da ditadura. Minha impressão é a de que o golpe do impeachment faz parte desse processo.
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