domingo, 19 de junho de 2016

As revistas semanais e a desconstrução de Michel Temer

Das capas que detonam Temer nesta semana, a mais inteligente é a da  revista Época, publicação que não tem se caracterizado por isso durante toda a campanha golpista pelo afastamento de Dilma Rousseff. A escolha da capa faz referência à dupla personalidade que explicaria os fortes indícios de que o interino tem um pesado envolvimento com as propinas denunciadas na Lava Jato: de um lado, Jekyll; de outro Hyde, os dois personagens da obra prima de Robert Louis Stevenson escrita em 1885 - O médico e o monstro.


Falta criatividade na imprensa brasileira, especialmente nas revistas. Confesso que gosto mais da capa da Carta Capital, mas por razões ideológicas e porque acho mesmo que a novidade da semana é o desmascaramento de Michel Temer. Mas o apelo sensacionalista que usa o truque da desconstrução da pedra para simbolizar a queda do mito (tantas vezes repetida nas imagens de Hitler, Mussolini, Lênin e Stalin - para lembrar alguns dos líderes messiânicos que viram seu carisma ruir), é muito batido e de natureza essencialmente anti-
jornalística. 

Veja, edição de 18 de maio
Tanto para a Veja quanto para a Carta Capital teria sido mais produtivo imagens/textos que deixassem o leitor mais convicto racionalmente na sua deliberação sobre os rumos que o Brasil deve seguir.

Nos dois casos, uma vez fixada a fidelidade de seus públicos leitores à postura editorial das revistas - o que parece já ter acontecido faz tempo - o exercício figurativo figura como um elemento catártico, mais do que jornalístico, ou como quer o Prof. José Luiz Aidar Prado, da PUC-SP, como enunciado performativo (ler em O leitor infiel diante dos mapas da mídia semanal performativa, Revista Fronteiras).

O elemento dissonante nesse quadro é o da Época  - uma imagem que remete a uma "eficácia simbólica" que  interrompe a narrativa sustentada pelas lideranças da conspiração contra Dilma - a desmontagem do circuito da corrupção chefiado pelo PT - ainda que essa não seja a posição editorial da revista; ao contrário: a revista da Globo continua apostando no golpe.

Penso que perdemos muito jornalismo em variações semióticas - no final das contas, o malabarismo formal acaba por esconder a ausência de vigor nas coberturas ao mesmo tempo em que sobra muita manipulação das informações.

Superar esse confronto entre o compromisso da cobertura com o interesse público e o engajamento político da mídia tradicional é o que se coloca no espaço de entendimento das três capas.
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