terça-feira, 9 de agosto de 2016

Folha de S. Paulo: cinismo tardio

O editorial principal de hoje da Folha (A sangria continua) é uma das maiores manifestações de cinismo que a imprensa brasileira produziu desde que se iniciou a campanha golpista contra o mandato popular de Dilma Rousseff. Preocupado com o rumo que a delação premiada de Marcelo Odebrecht pode tomar na direção do núcleo que forma o governo interino, o jornal pondera  subliminarmente para o risco que o país corre caso o senado decida pelo impeachment da presidente e efetive Michel Temer, ele próprio referido como intermediário de recursos destinados ao caixa 2 das campanhas de Eliseu Padilha e de Paulo Skaf em 2014. 

No final, refletindo o medo de Romero Jucá de que a operação de Moro, caso não fosse estancada, acabasse  desarticulando todo o sistema de poder montado pelos grupos neoconservadores e de ultradireita, a Folha sinaliza uma posição em benefício de si própria. Diz o texto do editorial: "é cedo para prever o desdobramento das denúncias [de Sérgio Machado e de Marcelo Odebrechet], mas seria grande surpresa se a crise política aberta pela Lava Jato se esgotasse nas engrenagens do poder petista no governo federal". Ou seja, é preciso recuar na aventura a que o golpismo das elites nos levou, pois o pais corre o risco de ser rifado (com a anuência dos poderes Legislativo e Judiciário) por uma facção de malfeitores como nunca se viu igual na nossa história.

Pessoalmente, entendo perfeitamente a preocupação do jornal dos Frias: ao lado do Estadão, da Veja, da Época, da IstoÉ, do Globo, a Folha integrou o complexo midiático e discursivo que alavancou o que há de pior na política brasileira e vem colaborando de forma eventualmente decisiva para que o desfecho do julgamento de Dilma seja irreversível e irrecorrível, como prova a manipulação recente dos resultados das pesquisas do Datafolha. Mas o cinismo talvez não seja suficiente para evitar que a opinião pública veja esses veículos todos como cúmplices da trama e insensíveis para as sistemáticas denúncias de que o afastamento de Dilma nunca foi mais do que um ardil de quadrilha. Reconhecer isso agora talvez seja tarde.

Em tempo: * Fora do tempo (Uol) * Dilma perde aliado e deposição vira jogo jogado (Josias de Sousa, Uol) * Aliados de Dilma alertam: impeachment de Dilma vai blindar Temer (GGN) * Como seria a imunidade presidencial de Temer (GGN) * Oposição pede a Janot que seja afastado por suspeita de caixa 2 (El País) * Bernie Sanders se soma a congressistas que condenam governo interino do Brasil (Mídia Ninja).
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