domingo, 18 de setembro de 2016

O mito que cai e o herói que não morre.


A prática da exposição do inimigo vencido, em especial sua cabeça e feições mortuárias, é antiga na História e deve ter chegado até nós pela persistência do significado simbólico que ela tem: o corpo inanimado (sem alma) e decapitado (sem rumo) equivale à danação e à perda de identidade mítica e messiânica com seus seguidores. 

No caso de Antonio Conselheiro (Canudos, 1896-1897), tal como no exemplo de Lampião cujo grupo inteiro foi executado em Angicos, no Sergipe, em 1938, a violência praticada contra eles foi imediata, tão célere que alguns decapitados ainda estavam vivos: importava exibir rapidamente o troféu do mito que cai, do herói que não retorna.

Na modernidade esse efeito é midiatizado, não propriamente através da decapitação, mas através da desconstrução imagética do herói: é preciso desmobilizá-lo pelo  despojamento com que ele é exibido (em gestos, cores, perda de adereços) de forma a torná-lo insignificante de recursos icônicos que o reiteram como mito (a faixa presidencial, um terço, a arma, por exemplo).

A revista Veja faz isso há muito tempo, mas tem uma predileção especial por fazê-lo com lideranças populares que representam a emancipação dos sujeitos políticos das classes subalternas: todos eles, de Lula a Guevara, receberam esse tratamento.

Cabeças de cangaceiros são esfregadas inutilmente na
sensibilidade popular com o objetivo de decompor
o sentido de sua representação mítica. Bobagem...
O resultado parece-nos insignificante pois que não há um único exemplo - no passado ou no presente - em que a desconfiguração do mito tenha dado certo. Com Lula não será diferente. Por que?
Corpo torturado de Guevara foi exibido na Bolívia, em 1967, 
como um troféu para que as imagens
dissessem que os mitos são mortais...


Porque não é o simbólico que constrói o mito, mas sua correspondência com a realidade concreta. O jornal El País acaba de publicar uma interessante reportagem sobre o Brasil que Temer está tendo que encarar depois do golpe. Na investigação que fez para explicar ao leitor a resistência que a população oferece ao novo governo, o jornalista deparou-se com uma obviedade sociológica. "Se eu gosto do Lula e da Dilma?" indagou sobre a pergunta um taxista entrevistado pelo repórter, e acrescentou: "Gosto muito dos dois! Eles fizeram muito pela gente aqui do Nordeste, por quem mais precisava. Em São Paulo falam de Lula como se fosse um bandido” (leia aqui a matéria integral). Deve ser essa a questão setentrional de que trata André Singer para explicar o lulismo

Nossas elites, egoístas como só elas, pensam que podem construir sua hegemonia com a demonização dos discursos que falam sobre os abismos sociais do Brasil. Certamente por isso, pela indiferença que mostram em relação aos abismos sociais que querem manter, ficam o tempo todo mentindo e inventando histórias... Mais uma vez, não vai dar certo; é só uma questão de tempo, unidade da existência da qual os mitos podem dispor à vontade.
______________________________

Nenhum comentário: