quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Dória, Russomanno & Marta: colapso da energia política

Recorro à referência feita à obra de José Saramago - Ensaio sobre a lucidez - na resenha do livro postada no site da editora Companhia das Letras. Lá pelas tantas, diz o texto que, numa imaginária cidade portuguesa, os eleitores, no próprio dia do pleito, lançam mão do voto em branco como forma de protesto contra "o sistema de sucessão governamental em seu país". Com isso,  com esse "corte de energia cívica" (uma "epidemia branca"), põem a democracia em profundo xeque (leia aqui a íntegra da resenha).

Pois eu olho para esses três primeiros colocados nas pesquisas de intenção de voto divulgadas hoje - Dória, Russomanno e Marta - e vejo neles a expressão acabada da despolitização das eleições, como se o gesto ficcional criado por Saramago se repetisse aqui nas opções de voto declaradas pelos eleitores em cada um desses três nomes. Dória, Russomanno e Marta representam não exatamente a rejeição de Haddad, mas uma espécie de niilismo político em razão do que têm os três de inexpressivo, de medíocre, de incorpóreo, de insubstância. São juntos e isoladamente a corporificação do voto em branco. Não é o caso exclusivo de São Paulo - porque parece que o fenômeno se espalha pelo país inteiro, um subproduto da campanha mentirosa que conduziu a opinião pública a uma forte rejeição de Dilma Rousseff - mas é aqui que esse processo ganha seu perfil mais sensível diante as contradições que caracterizam a vida na maior cidade do país.

Pensando bem, é um paradoxo daqueles. Depois de um longo período de simulacro de debate político marcado pela campanha anti-PT ou anti-Lula ou anti-Dilma, o que o golpe conseguiu instituir foi um vazio de projeto político que se manifesta na possibilidade de que o prefeito de São Paulo seja um sonâmbulo em busca de alguma ideia que o sustente. Alguém acredita mesmo que Dória, Russomanno ou Marta têm, além da sua hipocrisia, vaidade pessoal e inseridade, alguma competência para o cargo? 

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