quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Não são protestos, são deslocamentos sociais em direção ao Estado

O epicentro dos deslocamentos nas redes sociais - que encontra seu correspondente nas ruas - é uma força dinâmica dialética (para dentro e para fora) que aglutina toda a sua ira sobre Temer -  a personificação do Estado. 
O golpe criou um elemento destrutivo da sociabilidade política: se ele não for afastado, o Brasil explode; as antigas fórmulas de conciliação em momentos agônicos como este de agora podem não dar mais certo e esta será a crise mais profunda que o Brasil já viveu...

Vou pegar uma carona na postagem de Fábio Malini feita no site da Midium em torno de uma possível mudança no caráter nas manifestações de rua ocorridas no Brasil entre 2013 e 2016: segundo ele, o que está acontecendo agora é uma nova aglutinação social que deixa para trás as bandeiras anteriores (leia aqui). Interpreto a deixa de Malini - com toda a sua sabedoria sobre o que rola nas redes sociais - com um olhar talvez mais dramático: a reivindicação de eleições diretas já me parece atropelar as práticas conciliadoras e interclassistas que nos trouxeram a esta crise e ao desmantelamento do PT colocando em seu lugar um projeto ainda confuso de radicalização da democracia. 

Se isso for verdade, três fatos podem detonar uma explosão social de proporções inéditas. O primeiro fato é o resultado do processo de cassação do sujeito mais torpe da política brasileira atual -  Eduardo Cunha. A sessão se realiza nesta 2a feira e uma eventual absolvição do deputado - reconhecido publicamente como um bandido da pior espécie - pode resultar numa onda de protestos de consequências imprevisíveis, sabendo - como sabemos - que Dilma foi afastada do governo sem qualquer culpa em toda a trama que lhe armaram. Cunha absolvido é a contrapartida da ignomínia dos que o protegem (entre eles Michel Temer) versus indignação popular contra a injustiça cometida contra a presidente.

O segundo fato é a possibilidade de que Temer - que não deve satisfação a eleitorado algum pois que não recebeu um único voto para fazer o serviço sujo que pretende fazer - envie ao Congresso as reformas neoliberais pelas quais está sendo cobrado por seus chefes, em especial a Fiesp. Reforma da Previdência, flexibilização das leis trabalhistas, congelamento das despesas de saúde e educação por 20 anos, extinção de programas sociais - tudo isso constitui-se numa massa de maldades que só mesmo uma classe empresarial estúpida como a nossa tem coragem de implementar. A votação desses projetos, com a pressão insuportável dos partidos conservadores - pode colocar deputados e senadores em cima de um vulcão popular e sem chances de reeleição em 2018.

O terceiro fato é decorrente do vácuo político em que o país está vivendo. Temer virtualmente não governa coisa alguma. É um fantoche dos piores interesses privados que se escondem por trás de sua cadeira. Em situações assim, o descontrole do aparelho repressivo do Estado, como Alckmin faz questão de deixar acontecer no seu feudo, degenera em violência civil - que é o correlato da desobediência civil. Alguém já imaginou a possibilidade de que uma vítima fatal faça eclodir uma explosão irracional dos ânimos populares? 

As três hipóteses são, penso eu, bastante delicadas e indicam que o que está sendo questionado é o poder institucionalizado nas armadilhas que levaram ao afastamento de uma presidente digna e eleita (vale a pena repetir: eleita) por uma voz enraivecida que vem das ruas. 
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