quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Organização criminosa chefiada por Temer recebe salvo conduto

A melhor imagem do que aconteceu ontem em Brasília foi a de Antonio Imbassahy, que retornou à Câmara exclusivamente para reforçar a base de apoio a Temer. Pertencente ao PSDB, o Ministro Chefe da Secretaria de Governo circulou entre seus colegas tal como um mascate oferecendo recursos para emendas parlamentares em troca de apoio na aprovação do relatório de Abi Ackel que livrou Temer. O gesto despreendido de Imbassahy, em meio a inúmeras outras manifestações de desprezo pela ética parlamentar e pela conivência de 263 votos com a prática escancarada da corrupção, é o registro do colapso institucional em que o país está mergulhado: o Estado sendo leiloado em troca do apoio a um bandido.

Em contraposição a isso, o imenso e constrangedor silêncio das ruas. Com exceção de algumas poucas e desorganizadas manifestações contra Temer que rolaram pelo país em pontos dispersos durante o dia, o que se viu foi uma sociedade que perdeu a energia política para fazer valer a lisura dos seus instrumentos de representação. Não é por outro motivo que um dos responsáveis pela farsa de ontem, o próprio presidente da Câmara, o canalha Rodrigo Maia, disse alto e bom som para os que ainda têm dúvida sobre o fosso que se abriu na vida política brasileira: o Congresso não é obrigado a ouvir o povo

É claro que existem variáveis atenunantes, entre elas o fato de que diminuiu bastante a margem de apoio a Temer, cindiram-se as poucas unidades partidárias que ainda existiam - a principal delas, a do PSDB que se consagrou como um partido de aluguel, à semelhança do PMDB, e há mesmo pelo país um surdo sentimento de indignação que inevitavelmente deve se manifestar nas eleições de 2018. Apesar disso, não dá para desconhecer que Temer ganha um cheque em branco para atuar, provavelmente por mais 18 meses, como um demiurgo da política brasileira com o apoio que o trouxe até aqui: o conservadorismo obscurantista que atravessa a sociedade, a grande mídia e... o empresariado. Até que esse bloco se dissolva pelo resgate das ruas, estamos vivendo um conluio ditatorial de custo histórico extraordinário.

Leia mais: Um presidente inocente faria questão de serinvestigado (Tereza Cruvinel, GGN* Temer é aprovado por apenas 4% da população, diz Vox Populi (Valor) * Gráfico interativo mostra os votos dos deputados e os valores das emendas liberadas (The Intercept) * Millor, a Lava Jato e a fábula do burro ou do canalha (Luis Nassif) * Câmara fecha os olhos para a corrupção e sala Temer em nome da "economia" (Sakamoto) * Anote aí: como cada deputado voltou (Estadão) * Até tu, Quadros? ("PT prefere que Temer fique para ter discurso", José Nêumane, Estadão) * Placar expõe redução de base de Temer e dificuldade para mudar previdência (El País).
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