domingo, 10 de setembro de 2017

A estúpida lógica da austeridade: pobreza e atraso a perder de vista

Cagle Cartoon (fonte Abrasco)
Acabo de ler na seção Esquina do último número da revista piauí uma triste - mas interessante - análise sobre os riscos de que o mais importante computador produzido em terras brasileiras - o Santos Dumont - deixe de funcionar por falta de verbas do governo federal, esse mesmo governo que sustenta um bandido como Temer. O Santos Dumont está entre os 500 computadores mais velozes do mundo e não é um luxo; ao contrário, é uma necessidade para o nosso desenvolvimento e atualmente abriga centenas de projetos em diversas áreas que dependem de sua eficácia tecnológica para seguir em frente. Com o corte de recursos, tudo pode se perder (leia aqui a cópia pirata em pdf da matéria da piauí).

O caso do computador Santos Dumont - que foi atingido pela fúria da austeridade fiscal dos economistas que não têm qualquer mandato da sociedade para fazer o que fazem - é bem o exemplo dos motivos pelos quais as restrições dos gastos públicos como metodologia para sanear a economia e estabilizá-la pode ser, em contrapartida, um suicídio: a estagnação que a retração do Estado em vários setores provoca, num país onde justamente o Estado é fonte de financiamento - acaba misturando tudo na mesma régua: o que é e o que não é importante para a retomada do crescimento econômico. Guardas as devias proporções, a ortodoxia fiscal se assemelha a uma dosagem excessiva de algum medicamento contra a hipertensão: a pressão sanguínea pode diminuir radicalmente, mas o paciente morre. Não é à toa que políticas de austeridade fiscal não deram certo em lugar algum do mundo, e certamente não darão certo também no Brasil haja vista a despirocagem que será a aplicação da política do teto orçamentário por 20 anos.

Digo tudo isso em razão do artigo de Samuel Pessoa publicado neste domingo na Folha - Passo maior do que a perna. O economista, que tem no seu currículo a formulação de propostas recessivas para tudo quanto foi candidato à presidência da República nos anos recentes, é bem o exemplo da cultura das planilhas que não enxerga coisa alguma além das colunas deve e haver dos velhos livros-caixa. E o exemplo com o qual ele trabalha vem bem ao caso: lá pelas tantas, Pessoa ironiza os reclamos da comunidade científica que denuncia o corte de recursos. Para o economista da FGV, foi o crescimento do setor que gerou a crise - como se crescimento do setor da produção científica num país como o Brasil pudesse ser condenável. Na verdade, diz o título do texto, demos o "passo maior do que a perna".

Eis aí, em toda a sua obscuridade, a lógica que garante aos bancos o pagamento religioso das verbas destinadas ao financiamento da dívida pública que eles cobrem de forma escorchante; o mesmo princípio das remessas de lucros e a mesma racionalidade da alienação do patrimônio e da soberania nacional em favor dos estrangeiros e de seus testas-de-ferro brasileiros. A austeridade fiscal - como instrumento de atração dos investimentos (que não são atraídos por isso) - tem que ser posta em prática "custe o que custar", mesmo que isso signifique o sentido estrito do senso comum: carregar por gerações inteiras o ônus da pobreza e do atraso a perder de vista.
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Um comentário:

Anônimo disse...

Tempos difíceis caro professor. O que mais me assusta não as patsguadas desse vampiro presidente, mas a maneira como a populaçao está lhe dando com isto. Claudio marvaoliveira@yahoo .br