sábado, 23 de setembro de 2017

As vivandeiras estão de volta

Como não anda com as próprias pernas, nossa burguesia
precisa dos militares para desmontar o Brasil social
A expressão foi usada pelo Marechal Castello Branco quando referiu-se aos políticos que rodeavam os quartéis em busca de apoio militar para suas pretensões políticas,  comprovando a célebre e histórica fragilidade das elites que sempre preferiram romper com a democracia a submeter-se aos seus resultados. Elio Gaspari escreveu em 2010 uma interessante crônica na Folha sobre o efeito que a adulação dos civis teve sobre a consolidação da ditadura - "a treva de 21 anos" (leia aqui). Parece que estamos de volta ao mesmo risco, tal é a letargia - ou inércia - com que a indisciplina do General Mourão foi tratada depois que advogou um golpe militar na hipótese de que os corruptos não sejam afastados da vida pública: ao invés de uma punição severa, uma complacência suspeita.

Digo suspeita por um motivo simples: nossa burguesia está apavorada com a possibilidade de que veja em 2018 sair das urnas uma vitoriosa candidatura de esquerda na onda da rejeição quase que absoluta à armação do golpe do impeachment contra Dilma Rousseff. Sem competência para construir um bloco de governo que arregimentasse os vários segmentos anti-petistas ou neoliberais, o que ocorreu foi a montagem de um projeto anti-social e anti-popular cujo resultado é esse dejeto chamado Temer. O preço a ser pago é este mesmo: como alternativa para o fiasco eleitoral, relativismo moral - uma velha especialidade das nossas classes dominantes. Eventualmente um golpe (branco ou não) que suspendesse as eleições presidenciais do próximo ano. Tomara que os militares não caiam nessa...

Tudo isso para remeter à leitura da entrevista que Luiz Werneck Vianna deu ao site da revista do IHU, um alerta para o significado que tem a despolitização da crise pelo papel que as corporações passaram a ter na sua retroalimentação: "a polícia sumiu, esvaneceu, perdeu força, de modo que as corporações emergiram e estão tomando conta do país", diz Werneck Vianna. Corporações como partidos, racionalidade operacional no lugar do debate público, concentração de poderes no lugar das liberdades democráticas, como é possível deduzir da entrevista, Vale a pena ler: A Carta de 88 e a democracia brasileira estão em risco.

Leia ainda (também do IHU): * As Forças Armadas não agem contra o caos, mas são parte fundamental dele * General Mourão passou a ser o menor problema * Para historiadora, intervenção militar no Brasil não pode mais ser descartada (IHU).
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