segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Crise política se agrava e país caminha para colapso institucional

"Ou as instituições solucionam o problema político, pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos que impor isso"

A fala do General Antonio Hamilton Martins Mourão ontem, em Brasília, só é novidade para quem não acompanha o clima de decomposição do poder político e o vazio de representação que se instalou no país desde o golpe que afastou Dilma Rousseff da Presidência da República em abril/agosto de 2016. No período de um ano, nossa burguesia, apoiada pela grande mídia e pelo estamento jurídico do STF, transformou o Brasil numa verdadeira pastagem de interesses privados. O resultado é o que está aí: a desmontagem dos direitos sociais e da soberania nacional, a desmoralização quase que absoluta das instituições de representação política e a leniência com que os escândalos têm sido tratados - o principal deles, esse que envolve diretamente Michel Temer.

Pessoalmente, entendo que a manifestação de Mourão traduz um sentimento de indignação e de esgotamento que se espalha pelo descrédito que esse processo transferiu à normalidade democrática. Duvido muito que a sociedade possa demonstrar hoje qualquer vitalidade de resistência a uma intervenção militar tal é a desmoralização que todas as instituições do regime representativo entre nós acabou sofrendo. A figura do condottiere regenerador dos costumes políticos, tão comum no  nosso passado republicano, volta a assombrar - e empolgar - a esfera da deliberação conservadora: um messias fardado será bem-vindo para botar as coisas no devido lugar. Que o diga a simpatia que Bolsonaro, por exemplo, desfruta entre o eleitorado.

Isso tudo, no entanto, é um simulacro. Desde o impeachment de Dilma, o país tem sido levado de forma sistemática e organizada à percepção de que a democracia tem que ser interditada para que os plenos interesses do capital se consagrem e é fácil encontrar os núcleos que trabalham nesse sentido - no âmbito dos partidos, da mídia, de algumas igrejas evangélicas, no território dos tribunais, das representações patronais. O objetivo dessa ampla conspiração é impedir que as eleições de 2018 se realizem pois que nossas elites empresariais não conseguem encontrar um príncipe em torno do qual possam compor o poder civil. A perspectiva bastante concreta de que uma candidatura de centro-esquerda vença as eleições deixa essa turma apavorada. Se os militares se derem conta de que podem ser instrumentalizados por isso e se perguntarem a si mesmos a serviço de quem estariam, a intervenção fica mais difícil; se acreditarem que podem salvar o Brasil (seja lá do que for), temo até pelos próximos dias.

Leia ainda: * Golpismo militar retoma sua tradição (Janio de Freitas, Folha) * Exército: intervenção militar tem aval constitucional sob iminência de caos (Josias de Souza, Uol) * Governo, Exército e Ministério Público não atuam contra general que defende a intervenção militar (El País) * Comandante do Exército diz que não haverá punição a general por defesa de intervenção militar (Uol) * Ex-comandante de tropas no Haiti sai em defesa de general Mourão (Estadão) * Carta aberta ao general Antonio Hamilton Mourão (Paulo Fonteles Filho, GGN) * O xadrez do fator militar (Luis Nassif, GGN)
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