sexta-feira, 29 de setembro de 2017

O crime hediondo do golpe

Um país estagnado e ocupado por milhões de párias expulsos da vida econômica pela concentração da renda; na verdade, a lógica da política econômica dos golpistas que preserva os interesses privados do capital

O golpe que derrubou a presidente eleita Dilma Rousseff tem poucas marcas mais dramáticas do que a decomposição dos direitos sociais, os imediatos e os mediatos. Os primeiros estão sendo dilacerados por um conjunto de reformas que elimina o Direito como proteção da cidadania e do trabalho e o transforma num cordão de isolamento dos interesses do capital. Até agora, não há uma única inciativa dos golpistas e dos empresários que os apoiam no sentido contrário: o arcabouço das reformas e da política financeira recessiva que as inspiram tem um fundamento que consolida e agrava a tragédia da concentração da renda no Brasil (leia aqui a brilhante matéria de Marina Rossi publicada no El País).

Os direitos mediatos, no entanto, são os que escapam da racionalidade do pequeno prazo e dizem respeito à projeção que esse esmorecimento depressivo tem no futuro: a morte das expectativas, da natureza humanamente compensadora do trabalho e da idealização de projetos de vida. Um horizonte acinzentado que já começa a se revelar ainda nesse desastre histórico em que nos transformamos. O tema foi abordado em três textos do jornal Valor Econômico e precisam ser lidos como narrativa e como reflexão histórico-conceitual em torno de um processo que se agrava rapidamente. O primeiro é o de José de Souza Martins (Desigualdade oculta). Para o sociólogo, a matriz da desigualdade não reside apenas na defeituosa distribuição da riqueza, "mas sobretudo [na] distribuição desigual da consciência social e dos meios culturais que permitem a todos compreender as iniquidades constitutivas do sistema e a possibilidade da sua correção", o que pode significar para parcelas enormes da população brasileira - mas em especial para os que chegam à vida adulta nestes anos - um amortecimento de iniciativas de seus sujeitos políticos, alguma coisa como a "cegueira" de Saramago que nos põe no mundo como zumbis evasivos.

O segundo e o terceiro texto observam como esse decantamento já começa a se manifestar como forma de vida, (Jovens podem cair em limbo irreversível no Brasil e  Juventude encalacrada), ambos apontando uma perda de energia de uma população predominantemente jovem no exato momento em que se processa uma revolução tecnológica, condição de marginalidade que vai afetar de forma dramática em especial aqueles cujo capital cultural para enfrentá-la é menor, inclusive no terreno de suas identidades culturais. Acrescente-se a isso a perda da possibilidade de sobrevivência com a renda do trabalho regular e organizado face à desorganização das práticas profissionais que o capitalismo periférico alimenta para maximizar a lucratividade das empresas.

Pessoalmente, não sou muito otimista com as possibilidades de que esse cenário se altere sem uma revolução no campo da política e da reforma do Estado, embora não perca de vista que a contestação às práticas que nos têm levado a isso deva ser priorizada no espaço da militância do cotidiano. Acho que é essa a escolha fundamental que a sociedade brasileira terá que fazer em 2018.

Leia também: * No Brasil, 77% reprovam o governo Temer e 92% não confiam nele (Valor) * A dificuldade da esquerda para se reinventar (IHU)
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