sábado, 20 de janeiro de 2018

O Brasil sai de cena

Um país deslocado de si mesmo, em busca de um projeto que restitua a democracia ao seu povo e que o resgate das mãos dessa elite corrupta que está no poder
Fiquei 30 dias na Itália. Por que tantas vezes e tanto tempo no mesmo país? A razão é simples, pelo menos para mim: a Itália é uma síntese da Europa, como disse Burckhardt; uma expressão um pouco desordenada, mas real, do universo cultural do velho continente. Nada na Itália deixa de reproduzir o cenário europeu no campo das artes, no terreno acadêmico, nos impasses da política parlamentar e econômica. É ficar por ali, nas pequenas e nas grandes cidades, ler os jornais, ouvir a barulhenta Rai, os intermináveis programas de entrevistas conduzidos por uma gritaria exagerada, e aprender. Observar as exposições, as estreias, as livrarias...

Nos anos anteriores a 2016, no entanto, havia um ingrediente curioso que me acompanhava no passeio: a presença sistemática do Brasil como um país que exibia uma experiência cativante na esfera pública; um país periférico que exercitava uma chance de tornar-se uma democracia mais voltada para a superação das disparidades sociais que nos caracterizam do que nos governos anteriores a 2003. Lula e Dilma, mais ele do que ela, eram símbolos dessa aventura. 

Penso que um pouco em razão desse pano de fundo é que o nome do nosso país pontificava em vários setores. Acho que foi um tempo de curiosidades intelectuais pelas coisas do Brasil como só tinha acontecido nos anos 50, no governo JK, uma época em que o exotismo tropical que caracteriza nosso cotidiano andou lado a lado com projetos nacionais de desenvolvimento, com políticas emergentes de emancipação dos grupos sociais historicamente subordinados à elite brasileira - ainda que projetos incompletos e contraditórios. 

Depois do golpe contra Dilma, esse Brasil sumiu. Um professor da Sapienza me disse, um pouco constrangido para que meu nacionalismo não ficasse ferido, que o Brasil se assemelha a um país sonâmbulo que perambula às escuras em busca de um resgate de sua história, de sua jovem experiência democrática, de seu povo, de seus talentos e de seu jeito de ser, calórico e bem-humorado. "Esse país que vemos no noticiário, disse Sorrentini, não é o vosso, com um governante que é sabidamente um corrupto cercado de uma quadrilha que odeia o povo e que saqueia os direitos sociais como vem fazendo... não é o seu país".

Fico chateado em admitir que meu colega italiano está certo. Em 30 dias, não tomei conhecimento de uma única referência elogiosa ou entusiasmada com o Brasil que pudesse ser feita a respeito do nosso desempenho em qualquer setor que fosse. Em geral, as parcas notícias dão conta da alienação do patrimônio nacional, das reservas naturais à produção científica, da liquidação dos direitos trabalhistas, da imensa marginalidade social em que vivemos, da ameaça de que a eleição deste ano seja fraudada com a prisão de Lula, da erupção de grupos fascistas que colocaram nas próprias mãos, como as milícias fascistas o fizeram no tempo de Mussolini, o policiamento da Educação e da Arte, e da tolerância com a diversidade cultural.

Nosso país, com Temer e todos o que ele representa e chefia, saiu da cena do século XXI, uma diáspora para dentro de si mesmo como nem na ditadura militar se viu igual.

Encontro nestas matérias bons exemplos que indicam o estado de desmantelamento em que o Brasil vive numa das áreas mais estratégicas, a Universidade: * Ataque ao sistema de ensino superior do Brasil, o que está por trás disso (Le Monde) * Cortes afugentam cientistas (El País) * 2017 e o avanços da mercantilização do ensino superior no Brasil (Brasil de Fato) * Depois da reforma trabalhista, particulares demitem mais de 500 professores (R7) * Por que as universidades particulares estão demitindo professores? (Carta Capital).
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