segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Estamentos

Um sólido sistema terceirizado de dominação que se dá
pelas virtudes efetivas do poder simbólico: 
na base, são os trabalhadores
que sustentam a pirâmide estamental

O escândalo que envolve o auxílio-moradia "concedido" a integrantes dos 3 poderes (e não só aos juízes, é bom lembrar) é um bem ilustrado desenho de como se organiza no Brasil o efetivo sistema de espoliação das classes subalternas à margem e complementar da exploração capitalista tradicional. É como se o país fosse emoldurado por uma complexa teia de relações de poder que, na prática, consolidam vários níveis de dominação além da econômica, todas elas baseadas no capital simbólico do qual os estamentos lançam mão para organizar, segundo a sua visão de mundo, toda a sociedade.

Essa simples formulação, que não tem nada de original nos termos em que é feita aqui, vem de Weber e de Bourdieu e passa pela revisão do conceito ortodoxo de luta de classes, mas de forma alguma invalidam a máxima de que ela reforça a contradição fundamental da sociedade, em especial a brasileira onde esses componentes do poder simbólico encontram-se reforçados pela estrutura social herdada da colônia. 

Qual a importância disso? Quase nenhuma, exceto pelo fato de que nos ajuda a entender o universo das contradições políticas que estamos vivendo de forma mais aguda nos últimos 2 ou 3 anos, em particular a partir do início do processo agônico de conspiração que levou ao golpe que derrubou Dilma Rousseff. O Poder Judiciário, claro, ocupa aí um papel de destaque porque seu exercício se dá como intérprete do arcabouço das leis e nisso reside sua peculiaridade opressiva: a leitura do que dispõem as leis é atravessada pelo viés ideológico de sua origem estamental e sua consequente aversão ao poder popular. Não é só o auxílio-moradia que precisa ser mantido, mas a condenação de Lula, a proteção dos corruptos, a consagração das distinções sociais de forma geral e não a democratização da sociedade, como era mais coerente se os fundamentos da Constituição de 1988 fossem levados ao pé da letra. O STF, assim, assemelha-se mais a um Comitê Central das elites, delegado por ela para esse fim, do que um efetivo Poder Judiciário. 

O mesmo acontece com o Jornalismo, tradicional espaço no Brasil do exercício de um poder discursivo que tem menos a ver com o interesse público do que com um poder moderador (Afonso Albuquerque) a serviço de uma certa formatação da estabilidade social, naturalmente inspirada naquilo que as classes dominantes entendem por "estabilidade social". As notícias otimistas que envolvem o projeto de país que está sendo posto em prática desde a queda de Dilma, notícias invariavelmente mentirosas (recuperação econômica, queda do desemprego, virtude das reformas), têm muito desse feitio manipulador que não é deste ou daquele jornal ou jornalista, mas do campo como um todo: nosso jornalismo (empresas e profissionais) é hegemonicamente conservador e reacionário porque é essa a sua extração estamental. 

Talvez seja possível estender essa análise ao conjunto da imagem que ilustra esta postagem porque aparecem nela os médicos, os professores, os economistas, os tecnocratas, os jornalistas, os heróis do cotidiano esportivo e assim por diante, cada um de acordo com sua disposição orgânica e grau de percepção ideopolítica do contexto em que atuam. Seja como for, em maior ou em menor densidade, temos aí uma rede de funções cuja autoridade não decorre de seu poder econômico, mas do capital simbólico com o qual elas (as funções) executam suas prerrogativas, todas decorrentes das marcas estamentais que as caracterizam - de onde o seu forte e arraigado conservadorismo. Quando Sérgio Moro é acusado de receber um auxílio-moradia que o coloca em situação diametralmente oposta aos setores que recebem Bolsa Família é a esse traço distintivo que se refere o fato. E não há denúncia que o faça remediar essa outra forma de exploração que ele exerce... Só mesmo uma revolução social profunda é que eliminaria dos estamentos sua função cultural suplementar à exploração capitalista...
Ilustração: SlideShare

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