segunda-feira, 26 de março de 2018

A distopia cibernética, enfim...

Não é justo pedir às pessoas que entreguem absolutamente tudo a essas plataformas para se conectarem à vida moderna. Você não consegue encontrar trabalho se não tiver LinkedIn. Não pode graduar-se se não usar o Google. Não pode avançar na vida sem eles.
(C.W.)

O moço aí ao lado é Christopher Wylie, o cérebro da Cambridge Analytica (CA), como o define Pablo Guimón, o repórter que o entrevistou para o jornal El País (leia aqui). O conteúdo de suas declarações e a sinistra serenidade de seu arrependimento, são matéria prima da melhor qualidade para uma longa série de ficção científica, mas são também um registro diabólico do estágio a que chegou o universo do controle tecnológico ingenuamente previsto por Kubrick em 2001, uma Odisseia no Espaço. A diferença toda é que Hal 9000 pretendia controlar os limites de uma nave espacial; Wylie teve em mãos o poder de controlar nações inteiras - e chegou a fazer isso em pelo menos duas ocasiões decisivas, com razoável chance de que tenha sido bem-sucedido na hipótese de que as forças conservadoras que ampliaram sua influência com a ruptura da privacidade praticada pela CA consolidem seu poder político na União Europeia e nos Estados Unidos.

Dia desses participei de uma banca de mestrado cujo tema girava em torno de aspectos próximos ao escândalo da GA. O autor do trabalho - um profissional da área do jornalismo on-line - colocou à mostra um complexo jogo que preside os critérios de seleção dos portais noticiosos mais importantes do país. No final das contas, ainda que tenha demonstrado com muita competência que as escolhas podem deixar de lado os códigos jornalísticos e valorizado apenas um main frame disseminado pela crise da cultura contemporânea, ficou uma desagradável sensação no ar: afinal, em que nível da tecnocracia digital reside o poder da manipulação? Christopher Wylie nos dá uma pista valiosa para a resposta, mas não custa adiantar: no nível do controle das vontades...

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