domingo, 25 de março de 2018

Nossa modernidade tardia

Capão Redondo, zona sul
de São Paulo
 (Zanone Fraissat, Folhapress)
Curioso e provocativo - ainda que superficial - o artigo de Hélio Schwartsman publicado hoje na Folha, uma espécie de lamento entristecido pela constatação de que "o Brasil está condenado a ser um país um pouco menos civilizado" tantas são as fraturas sociais que não conseguimos vencer e superar. Esse é um assunto recorrente qualquer que seja o tema em discussão, em qualquer círculo que converse a sério sobre as perspectivas que nosso país tenha no curto e no longo prazo: nossa marca é a da modernização defeituosa, um processo que confinou a 15% da população (se tanto) os índices daquilo que o colunista entende por civilização

Me faz lembrar a rápida polêmica que surgiu numa banca de mestrado sobre o noticiário econômico do Estadão: minha colega de comissão. lá pelas tantas, saiu-se com a justificativa de que as posições do jornal dos Mesquita eram justificadas "pois a esquerda tem que entender que não dá para termos um Estado desse tamanho" (referindo-se à política de austeridade posta em prática pela Emenda do Teto), argumento que contestei: "pois a direita tem que entender que não dá para termos uma desigualdade social desse tamanho".

Eis, me parece, o coração do problema: nossa elite põe em funcionamento, de forma secular, um rígido e selvagem mecanismo de transferência de renda do trabalho para o capital cuja marca principal é a exclusão de camadas inteiras da população dos equipamentos do moderno, um processo de incivilizado que resulta nisso que está aí: somos o país que ostenta os maiores níveis de desigualdade social e de concentração da renda do planeta. Um país de anomalias profundas cujo sistema de representação política rejeita mediações e projetos de desenvolvimento que procure saídas para essa situação. Nesse cenário, não é de espantar ninguém que os projetos com maior densidade eleitoral situem-se nos extremos... fato que põe em risco também os enunciados da democracia... para desespero de Schwartsman.

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