terça-feira, 24 de abril de 2018

O jornalismo e o jogo do único erro

Após prisão de Lula, PT ainda é o partido preferido do eleitor, diz Datafolha

Mesmo com a prisão de Lula, PT é o partido preferido do eleitor. É essa a tradução objetiva dos dados apurados pelo Datafolha (leia aqui). O advérbio ainda presta-se à construção incisiva de um significado de "transitório", alguma coisa que "não dura muito", algo que é "provisório". É através dessa aparentemente inocente partícula que o jornal introduz sua opinião no título já que o resultado da pesquisa é insuportavelmente petista. 

Diz a regra que o jornalista não briga com os fatos,
mas a Folha faz pior: recria o fatos e fragiliza
a esfera pública. Presta um desserviço à democracia.
A Folha, como outros jornais que se transformaram em porta-vozes do conservadorismo de seus proprietários, é especialista nesse sequestro que promove do discernimento  do leitor através de pequenos e sorrateiros artifícios da linguagem. Em 2012, por exemplo, ao noticiar recurso de José Dirceu que tramitava no STF (ao lado, em fac-símile da capa da edição), o jornal dos Frias, saiu-se com a pegadinha de um outro advérbio de tempo para insinuar que a absolvição não se confirmaria, "já" que três outros ministros condenavam Dirceu. Na época, uma postagem minha (Discursos do Jornalismo: a maldade da conjunção fantasiada de advérbio) apontava essa sistemática subversão da objetividade jornalística, um compromisso doutrinário que nossos jornalões mentirosamente dizem cumprir, mas não cumprem.

Brincadeiras que levam em conta as grosserias narrativas desses "grandes" veículos à parte ("Papa para papamóvel e toma gole de mate de peregrino em Copacabana" ou "Corinthians tem 61,9% de chances de ficar fora..." - duas pérolas barrocas da mesma Folha) o fato é que a manipulação dos "enunciados discursivos" feita pela imprensa é um risco para a democracia.
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