quinta-feira, 10 de maio de 2018

A nova narrativa do fascismo

"Como a alt-right usou a linguagem dos memes para
sair de cantos mais ou menos obscuros da 
Internet
 e acabar dominando grande parte  do debate político"
A extrema-direita está fazendo um upgrade das suas construções discursivas, não propriamente na natureza ideológica essencial dos seus enunciados, mas no seu formato, em especial no uso de recursos cuja mobilização, até recentemente, era quase que exclusiva da criatividade irreverente e contestadora do radicalismo liberal e socialista.

Nos Estados Unidos, esse pressuposto segundo o qual a inteligência e a verve iconoclasta eram monopólio dos outsiders do sistema parece que está caindo por terra: é ali, onde o pensamento neoconservador produziu sua criatura mais horrenda, um cara chamado Donald Trump, que essa mudança está emergindo com força suficiente para emplacar uma certa hegemonia narrativa de legitimação pública, muito menos rancorosa e empoeirada do que estávamos acostumados até há pouco tempo.

O fascismo pode ser divertido e sedutor? Sedutor parece que sempre foi a julgar os estudos que estabelecem sua relação com o desejo, a força e as significações da sujeição do eu ao poder; mas divertido, ironicamente divertido, e por esse caminho instaurar uma ética da simpatia fundada na insensibilidade moral e na indiferença do riso? Essa coisa a gente não conhecia; pelo menos não conhecia direito...

A matéria do El País, cuja íntegra eu disponibilizo aqui, faz uma interessante reflexão a respeito disso. Embora tome como referência o que acontece no coração do império, não é muito difícil perceber os sintomas de sua manifestação na periferia, especialmente numa área como o Brasil onde a cise do capitalismo meia-boca que nos oprime construiu uma sociabilidade de ódio e preconceito. Também aqui, no entanto, uma certa juventude espiritualmente sagaz - como parecem ser os meninos corruptamente dourados do MBL - está sabendo incorporar os atributos expressivos da margem esquerda e usando-os como instrumento de arregimentarão da empatia. Vale a pena ler o texto do jornal espanhol na sua versão brasileira como uma advertência contra o conformismo como isso vai se incorporando às nossas constatações sobre a simplicidade linguística do terror que ela esconde.

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