sexta-feira, 4 de maio de 2018

De conspirações e bruxas

Cadê o prédio que pegou fogo?
Conspirações são mais ou menos como bruxas: ninguém acredita nelas e elas não existem. Mas fico muito impressionado (mal impressionado) com a rapidez com que se concluiu que foi a explosão de uma prosaica panela de pressão a causa do incêndio que acabou por derrubar o prédio do Largo do Paissandú no dia 1o. de maio. 

Será que todos os dejetos do fogo não tinham quaisquer vestígios de outras causas: um cigarro, um curto-circuito, uma maldade? Não tenho a menor dúvida sobre a integridade de quem fez a investigação, mas é o caso de perguntarmos o motivo do açodamento, da pressa com a conclusão, de acabar com qualquer polêmica em torno do acidente. Imaginem só: o prédio ainda estava em chamas e o ex-prefeito de São Paulo, o insuportável Doria Jr, já tinha dado uma entrevista ao Estadão (pelo menos foi a que vi entre os veículos que acompanho) adiantando que o prédio só não foi desocupado porque havia sido invadido por "facções criminosas". Quais? Será que o então prefeito sabia coisas que a polícia desconhecia. Que facções criminosas dominem presídios vá lá... mas que dominem um edifício? Por que a municipalidade não acionou os órgãos competentes para expulsar dali esses caras? O Ministério Público, por sua vez, alegou que o processo de interdição do prédio foi arquivado porque pelo menos um órgão da Prefeitura - a Defesa Civil - atestou  a inexistência de riscos na construção. Como assim "inexistência de riscos"?

Agora aparece na rede essa matéria da Brasil Atual (leia aqui) dando conta de que uma incorporara distribuiu um folheto de propaganda sobre um lançamento imobiliário de cuja lateral esquerda o prédio atingido pelo fogo foi simplesmente deletado. 

A Teoria Conspiratória da História é, na maior parte das vezes, um exercício de ficção, mas essas coincidências estimulam a imaginação de um jeito incontido. O dia 1o. de maio de 2018 foi incomum. Um 1o. de maio como há muito tempo não se via e o momento dessa sua característica não foi exatamente a romaria a Curitiba dos cidadãos que querem Lula livre; foi o incêndio e o espetáculo grotesco protagonizado pelo vil Michel Temer posto a correr por populares que quase o lincharam.

Nem de longe estou insinuando relações quaisquer entre esses acontecimentos, mas numa situação como essa, nesta conjuntura, é preciso transparência radical nas apurações e cautela com conclusões que mais animam do que coíbem a aventura. Eu gostaria de conhecer de perto o laudo da Defesa Civil, a premonição da incorporadora que apagou o prédio antes do fogo; os sentimentos profundos de Doria nessa questão das "facções criminosas...". Só para dormir mais confiante e crédulo: bruxas não existem e torço para que o Brasil não tenha chegado a imaginar Reischtags que legitimem ditaduras. O que me tira o sono mesmo é essa ideologia do desprezo pelo social que desde o golpe do impeachment vem contaminando esferas crescentes do governo, do pensamento conservador e parcelas significativas da população: um caldo fervoroso de irracionalidade fascista que adora um incêndio para detonar de vez com a combalida democracia brasileira.

Leia mais: * Acusado por Doria de pertencer a "facção criminosa" é seu aliado (Folha).
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