domingo, 20 de maio de 2018

Reformas pós-golpe jogam país em crise profunda e as eleições podem não ser a saída

Um país de gente desesperançada e insegura, sem proteção social e à margem da vida produtiva. 
São os nossos empresários golpistas os que gostam e se regalam com isso

Diz o Uol que o Brasil possuia no 1o. trimestre deste ano 10,7 milhões de trabalhadores informais, um número 5% maior que no mesmo período do ano passado (leia aqui). Entenda-se por trabalhador informal o cidadão que despende seu esforço sem qualquer regime de garantia legal, o que o faz além de aceitar condições indignas e selvagens de subordinação, salários aviltantes. Não sei se o conceito de precariado surgido nos estudos sobre as mudanças que vêm se expandindo no mundo todo na esteira do neoliberalismo; sei que, no Brasil, a ampliação dessa forma de existência cresce na maré da obsessão desregulamentadora dos empresários, os únicos beneficiados com as mudanças na legislação trabalhista que vigoram desde o fim de 2017.

A matéria do Uol, na verdade, não é exatamente uma denúncia sobre o processo de desmontagem das normas que regulam a vida dos trabalhadores, mas uma espécie de manual de sobrevivência para aqueles que se encontram nessa situação: a precarização salarial e desgarantida dificulta de tal forma o cotidiano da vítima do novo sistema que ele vive quase à margem do mercado ou insere-se nele sob a tortuosa chantagem que sofre exatamente por conta da fragilidade de sua situação. Pode-se afirmar que o golpe colocou o Brasil numa situação inusitada na História: uma sociedade onde a riqueza gerada pelo trabalho subtrai a garantia de sustento de quem trabalha... um processo na contra mão de tudo quanto aconteceu depois da Revolução Industrial no século XVIII.

Questões éticas à parte (como se isso fosse possível), o fato concreto é que essa retração no poder de compra de parcela significativa da população brasileira (os 5% apontados no início deste comentário é um índice de aumento maior que qualquer outro padrão de referência: população, PIB, inflação), associada aos 14 milhões de desempregados, aos 53 milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza e à retração dos investimentos públicos, provocam uma paralisia geral na economia, um emagrecimento do mercado interno cuja consequência só pode ser mesmo essa: um país atolado, nas mãos de um empresariado sem qualquer projeto que sustente seus próprios interesses. É a Folha que registra o círculo na matéria Análise de crises passadas indica que Brasil vive a pior retomada da história, fato que os economistas atribuem à capacidade ociosa dos setores produtivos. Claro, como superar a ociosidade, recuperar investimentos num quadro de depressão do mercado consumidor?

Depois dos argumentos usados no artigo de Wlliam Nozaki sobre a dificuldade que os analisas políticos tradicionais têm para interpretar as escolhas dos eleitores (leia aqui) parece mesmo que a fratura do país escapa aos limites da rotulagem esquerda x direita, exibindo antes um antagonismo entre o projeto da sociedade e o projeto dos privilégios das elites que talvez não se resolva nas urnas...

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