quinta-feira, 10 de maio de 2018

USP x Kroton


Um país sem instrumental científico ou educacional para enfrentar os desafios de seu desenvolvimento está condenado a viver de joelhos e sem projeto que o liberte do atraso e da pobreza.

O processo evidenciado pelo embate entre os dois modelos de universidades existentes no Brasil não começou agora. Desde a ditadura, o conceito de que o Estado deve transferir para os interesses do capitalistas privados a exploração do mercado que se formou no ensino superior pelas demandas da ascensão social cresceu, em parte como concepção política, mas em parte também em consequência dos insuportáveis lobbies dos empresários que desde a lamentável gestão do PSDB no MEC na época de FHC não deram um instante sequer de trégua em favor do crescimento de seus empreendimentos.

O resultado é o que se vê: a Universidade brasileira e a escola em geral transformaram-se nesse monstrengo disfuncional que não guarda nenhum compromisso com as necessidades de desenvolvimento da sociedade, ou porque uma parte amplamente majoritária delas transformou-se em fábrica de diplomas e lucros - com um ensino medíocre, ou porque, na área pública vive miseravelmente sem recursos nem para o ensino, nem para a pesquisa. As duas notícias abaixo são o retrato do estado em que essa dicotomia se encontra: gigantismo empresarial x penúria acadêmica.

Segundo matéria do Estadão (Universidades brasileiras caem novamente em ranking internacional), apesar da posição que ocupa em termos globais pela dimensão de sua modernização (embora dependente e de fraco desempenho econômico), o Brasil só tem "cinco instituições entre as 100 melhores dos países emergentes, e quase todas elas apresentaram queda pela segunda vez consecutiva" no ranking da revista britânica Times Higher Education. A USP, que sempre é destaque em qualquer ranqueamento pelo papel que ocupa no cenário brasileiro, caiu agora uma posição - do 14o para o 13o. lugar, vale destacar: entre os países emergentes.

Já a Kroton, um conglomerado que poderia ser comparado a um supermercado de ensino, sequer tem qualquer preocupação com índices de mensuração acadêmica. O que seus dirigentes querem mesmo é faturar alto, política protegida pelas sucessivas práticas neoliberais na educação (inclusive em gestões petistas), em especial depois do golpe de 2016. Segundo a revista Carta Capital (Kroton Educacional: expansões da sujeição de todos ao trabalho), a holding só perde para a chinesa New Oriental quando o assunto é ensino privado global: "667 polos de Educação a Distância, 124 campi de ensino superior e mais de um milhão de matrículas no ensino superior e pós-graduação, 41 mil alunos no Pronatec, 290 mil alunos de educação básica e mais de 600 escolas parceiras em 18 estados e 83 cidades brasileiras, além de sua atuação internacional". Todo esse gigantismo, no entanto, não gera um único projeto de ensino ou de pesquisa que tenha qualquer relevância.

Só em perspectiva de longo prazo é que a sociedade brasileira vai sentir o custo dessa vilania praticada contra a universidade brasileira, mas é possível arriscar: um país sem instrumental científico ou educacional para enfrentar os desafios de seu desenvolvimento está condenado a viver de joelhos e sem projeto que o liberte do atraso e da pobreza.

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