quarta-feira, 20 de junho de 2018

Na Rússia, a matéria prima de um país que está fracassando

Como todo mundo, também eu fiquei constrangido com as cenas dos brasileiros que humilharam jovens russas nesses dias de Copa do Mundo. Acho que é redundante, a esta altura, a crítica ao conteúdo machista ou sexista do assédio a que as meninas foram submetidas: só a mais absoluta insensbilidade pode ver naquilo motivo de riso ou de algum prazer - me parece, neste caso, que é essa a lógica - a primeira lógica do que aconteceu - das cenas viralizadas nas redes, ou seja, a submissão do outro pela ignorância que o outro tem do discurso de quem o submete, como um castigo que é imposto a quem ignora sua causa. Penso que quando Bourdieu falou em "dominação simbólica" deve ter pensado em algo parecido.

Mas é a segunda lógica do assédio a que me chama a atenção: a anulação da alteridade, pois que as pessoas vitimadas pelo assédio tiveram que ter a sua existência absolutamente apagada para que fossem submetidas ao constrangimento que sofreram. A indiferença dos torcedores a essa situação é ali absoluta: não há ninguém à frente deles que mereça sequer uma ponderação em torno de sua humanidade, seja mulher, seja homem.

Um dia depois desse episódio fico sabendo que um desses "torcedores" foi meu aluno no curso de Jornalismo que concluiu em 2006. Jornalismo... uma área profissional que por sua natureza é atravessada sistematicamente por questões de natureza ética e cultural e que, pelo menos enquanto estive na instituição que ele frequentou, constituia a espinha dorsal do projeto pedagógico com o qual trabalhávamos. Minha indagação advém deste fato: como é possível que esse capital que constituiu a formação desse moço tenha sido de tal forma ignorado nessa revelação que ele faz na Rússia?

Temo que a profunda crise em que o Brasil vive está queimando as referências do cotidiano de uma parte dessa geração que agora vai mergulhando na maturidade, transformando-a em refém de uma cultura do embrutecimento e do deboche, de um egocentrismo que revela uma enorme dificuldade em entender as regras da sociabilidade humanista, racional e inteligente. Se isso for verdade, esses episódios grotescos que nos expuseram ao mundo podem ser o registro de um país que está fracassando.

Leia aqui o texto em que os colegas de um dos envolvidos no episódio manifestam sua indignação com o que ocorreu: Carta de repúdio ao jornalista Leonardo da Silva Júnior
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