sexta-feira, 8 de junho de 2018

Impressões, verdade e verosimilhança

Imagens rupestres de Lascaux: expressões míticas de
eficácia simbólica extraordinária
A realidade não é um dado objetivo apenas; ela é um elemento que compõe - ao lado de outros - a construção do imaginário. Portanto, qualquer narrativa que se pretende um retrato fidelizado do real -  e se circunscreve nessa dimensão - é menos expressiva que as impressões subjetivas da realidade.

O risco que esse enunciado sofre é o de ser confundido com um jogo de palavras; um exercício de retórica. Mas ele precisa ser observado na sua coerência interna e histórica. Como Salman Rushdie afirma nesse pequeno ensaio publicado na revista Piauí, o mundo pode ser mais bem explicado pelas narrativas conflitantes [e paradoxais] entre si. Diria eu: características de um conceito marcado antes pelo realismo como escola do que pela realidade como elemento ontológico. Penso meio no terreno do óbvio que foi Einstein quem insuspeitamente disse isso.

Qual o objetivo dessa arenga toda? Ela está muito presa a uma rápida polêmica que mantive dia desses em torno da competência jornalística de uma imagem cuja fidelidade ao real era indiscutível mas era expressivamente menor do que seria a verosimilhança com os fatos que a cercaram. Isto é: a reprodução "exata" da cena tinha densidade cognitiva mais baixa que a impressão memorizada do seu poder de síntese. Qual das duas imagens serviria mais ao objetivo de informar? Pessoalmente, não tenho nenhuma dúvida: a verosimilhança é mas rica que a verdade pois ela opera no âmbito da fabulação que o imaginário permite.

Essa discussão vem muito a propósito da mais recente fruta da temporada: o conceito de pós-verdade.  O tema, que também é tratado no artigo de Rushdie citado acima, tem sido recorrente na academia, mas ganha dimensão maior nos cursos de jornalismo, pois que são os profissionais desse campo os que se sentem mais afetados pela existência de um fenômeno conceitual que atinge o núcleo epistêmico da apuração noticiosa. Pois foi numa das minha aulas com uma das turmas da PUC-SP que pudemos - eu os estudantes - abrir uma perspectiva que diferenciava a pós-verdade do fake news, atribuindo à primeira uma lógica da cultura contemporânea - o relativismo da objetividade; e à segunda uma lógica colocada no âmbito do relativismo ético-politico. Saimos bem dessa discussão e quero voltar a ela em outra oportunidade. Sugiro abaixo algumas leituras sobre o assunto e em torno de questões relacionadas a ele.

* A era da pós-verdade (Carta Capital) * A nova memória coletiva (Piauí) * Dois anos que abalaram o facebook e o mundo (Piauí) * Rebelião contra as redes sociais (El País) * Da pós-verdade ao risco da pós-imprensa (OI) * Verdade e perspectiva (Wilson Gomes)
______________________________

Nenhum comentário: