domingo, 22 de julho de 2018

Editora Abril

Veja foi patrocinadora e entusiasta de regimes
de exclusão social: seu lamento em torno da
pobreza no Brasil soa de forma cínica e anacrônica
Curiosa ironia estampada na capa da Veja desta semana, talvez uma de suas últimas edições: a obra prima de Cândido Portinari, uma denúncia contundente sobre a desigualdade, a pobreza, a miséria social que a própria revista ajudou a consolidar no país com o apoio que deu, em boa parte de sua história, à dominação retrógrada das elites brasileiras.

Não acho que a  virtual falência da Editora Abril deva ser motivo de festejos ou de qualquer outro regozijo por seu fracasso jornalístico e empresarial.  Penso que a redução no número de produtos editoriais é sempre um processo penoso para o jornalismo e para a esfera pública porque o nível da argumentação em torno das questões de interesse social diminui e, por consequência, a qualidade da deliberação escrutinada, que é a essência da democracia. Mas também penso que a Abril, em especial no perfil messiânico e salvacionista que a Veja adquiriu desde o fim dos anos 80, revelou que seu jornalismo sucumbiu ao exercício da doutrinação cega do anti-comunismo e do anti-socialismo. Uma revista que perdeu o senso de compromisso social com a informação, independente do alinhamento ideológico dos proprietários da editora.

Digo isso tudo pela dupla experiência que tive com a Abril: a pesquisa que resultou na minha tese de doutorado sobre a revista Realidade (disponível aqui) mostrou uma disposição jornalística moderna e sintonizada com a efervescência dos anos 60 - disposição da qual, em especial no período 1966-1968, resultou um dos melhores produtos da imprensa brasileira, invariavelmente associado à liberação de padrões de comportamento que também atingiu o Brasil. A ditadura certamente não se sentiu confortada com isso - e esse deve ter sido um dos motivos da importância da revista.

A segunda experiência foi a que todos vivemos no processo de redemocratização nos anos 80. A Editora Abril tornou-se a antípoda do que tinha sido nos anos 60, favorecendo a formação do arco conservador que nos trouxe até o golpe do impeachment contra Dilma. O resultado disso a própria edição desta semana da Veja se encarrega de exibir sob a forma de uma afirmação meramente retórica: voltamos a isso, sim. E a Editora Abril, com ou sem influências externas de quaisquer tipos, tem responsabilidade nisso.

Não acredito em regimes de recuperação empresarial que violem o projeto original sobre o qual uma instituição como uma editora se fundou e se desenvolveu, ainda mais quando o próprio projeto original foi descaracterizado como foi o da Abril. A palavra final está mais nas mãos da sociedade brasileira do que em qualquer outro lugar.

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