terça-feira, 31 de julho de 2018

Heróis do mau caráter

Enriqueça a galeria: desenhe sobre o esboço
 o mau-caráter símbolo do golpe
Tomo emprestada a ideia que consagrou o clássico de Mário de Andrade - Macunaíma, o herói sem nenhum caráter - para uma breve reflexão sobre o tema da hora nas mídias sociais: o desastrado vídeo em que Neymar tenta, via Gillette, resgatar algum tipo de respeito pela triste persona que o acompanha ao longo de sua curta carreira - quase em vias de se encerrar precocemente.

Penso que a associação entre esses dois personagens é descabida: Macunaíma é o colonial que passa a vida escapando das determinações do atraso; por isso, é um sobrevivente; e o sem caráter, definição com a qual seu criador o descreve, está longe da maldade, embora perto da malandragem - um traço daquilo que talvez Sérgio Buarque de Holanda usasse para definir o jeito cordial da nossa vida social. A única coisa que Macunaíma quer ele deixa claro na sua história: não vim ao mundo para ser pedra.

Genial. É como se ele afirmasse, altivo: vocês não vão fazer comigo o que bem entendem. A vida brasileira está repleta de personagens desse tipo que adotam uma certa docilidade nos expedientes que descobrem para chegar alimentadas ao final de cada dia. Deve ser esse o traço que dá à obra de Mário de Andrade o seu significado universal. Não há nada mais malandro que cachorro de mendigo e... nada mais solidário.

A ausência de caráter não como padrão de resistência
ao atraso colonial mas o mau-caratismo como ética
 É a herança que o Brasil recebe dessa turma aí de cima. 


Mas o mau-caratismo de Neymar e o dessa turma que aparece com ele na montagem ao lado não são a mesma coisa, nem têm o mesmo traço cultural de Macunaíma. Nesse grupo - um universo bastante limitado de quantos mais poderiam compor a galeria - a voz ativa aparece invertida: vou fazer com vocês o que bem entendo, parecem dizer cada um deles nas atividades em que se especializaram: são safados - como reconhece o próprio Neymar no vídeo em que pretende, barbeado, anunciar sua redenção: a trapaça desprovida de ética não porque a ignora, como em Macunaíma, mas porque é a trapaça anti-ética deliberada, fraudulenta, viver como não se é, maldosamente como não se é, sempre às custas da dignidade alheia, expropriando-a.

Temo que esse tenha se tornado o perfil icônico do brasileiro nestes dias em que vêm à tona as revelações plenas e indisfarçáveis do golpe de 2016, ou alguém imagina que as simulações de Neymar não sejam as simulações de todos eles?

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