quinta-feira, 5 de julho de 2018

Os nossos patrões (transcrição não autorizada do Portal Sul21)

Marcos Rolim (*)
Sul21
Talvez Bolsonaro seja mesmo um candidato à altura da
inteligência e do senso moral dos grandes empresários nacionais

Os partidos e os políticos brasileiros costumam não ter posição sobre temas polêmicos. Quando são obrigados a se manifestar sobre assuntos que dividem a opinião pública, se refugiam em formulações genéricas, evitando o desgaste eleitoral das definições, ou abraçam posições equivocadas desde que isso lhes permita a desejada sintonia com o eleitorado. Em busca do voto, os candidatos tendem a se transformar em matéria gosmenta, formada por chavões, platitudes e reticências. Esse fenômeno é ainda mais pronunciado quando observamos a conduta dos candidatos a cargos majoritários. Nesses casos, a cautela parece ser a principal orientação dos discursos que fluem para o lugar comum, o que sempre me faz lembrar a pergunta de Soljenítsin em O Primeiro Círculo – “Alguém que seja sempre cauteloso pode permanecer um ser humano?”

Políticos cautelosos ponderam, sobretudo calculam, antes de cada manifestação. As pesquisas de opinião identificam a inclinação majoritária do eleitorado e outras técnicas permitem que se saiba quais são as frases ou expressões mais bem avaliadas pelo público, de forma que um candidato a Presidência, por exemplo, é informado sobre o que deve dizer e sobre como deve fazê-lo.

Tendo presente esse quadro, valorizo o discurso político que se insurge contra o senso comum e que avança na sustentação de reformas que contrariam interesses particulares. Candidaturas que têm essa marca são capazes de alterar o jogo, porque incidem sobre a pasmaceira formada por preconceitos, ignorância e interesses não republicanos com uma nova agenda política. Por conta disso, especialmente, identifico na candidatura de Ciro Gomes uma virtude que se tornou rara entre nós e que pode ser identificada com a expressão “coragem cívica”. Sem esse atributo, jamais teremos uma nova agenda política no Brasil.

Uma das piores dimensões da tragédia política brasileira, aliás, deriva do fato de que o País não dispõe de uma agenda de reformas em torno da qual tenha se produzido um consenso elementar. E não temos essa agenda, porque a esquerda brasileira, que ocupou o governo por 14 anos se recusou a implementar reformas, reduzindo sua ação a programas de inclusão cujos limitados efeitos benéficos e meritórios foram surrupiados pela recessão estimulada pela irresponsabilidade fiscal e pela incapacidade de afrontar os interesses da banca.

A parte mais pesada da herança não reformista da esquerda – que, no governo, renovou os esquemas de corrupção e legitimou o status quo em nome de um pragmatismo senil – é que a extrema direita assumiu a dianteira na oferta de uma plataforma de mudanças radicais. Bolsonaro simboliza esse deslocamento histórico como uma expressão das expectativas antidemocráticas que têm se fortalecido não apenas no Brasil. No caso da extrema direita, como já assinalei em outros textos, ela cresce sobre os dois tendões de Aquiles da esquerda: a relativização da corrupção e a incapacidade de enfrentar o caos na Segurança Pública.

Essa semana, em encontro na Confederação Nacional das Indústrias (CNI), Bolsonaro foi aplaudido por muitas das mais importantes lideranças empresariais do País. Em seu discurso, afirmou que “o Brasil está sendo inviabilizado por questões ambientais, indígenas e quilombolas”, disse também que não entende de economia, que irá nomear vários generais para seu ministério e que os empresários são os “nossos patrões”.

Talvez Bolsonaro seja mesmo um candidato à altura da inteligência e do senso moral dos grandes empresários nacionais. Todos deveriam saber, entretanto, que o verdadeiro e o único patrão do servidor público e de qualquer pessoa que se dedique à política é o povo brasileiro. No mesmo espaço, Ciro Gomes foi vaiado quando afirmou que irá rever completamente a reforma trabalhista aprovada no governo Temer. O “mercado”, expressão que oferece voz aos interesses especulativos de maneira a criar a ilusão de que nos referimos a uma entidade sem sujeitos, quer distância de Ciro, o que se tornou patente desde que ele declarou que jamais assinaria um documento como a “Carta aos Brasileiros”, documento com o qual Lula tranquilizou os senhores feudais, com quem, ao fim e ao cabo, iria governar para felicidade geral do rentismo.

(*) Doutor e mestre em Sociologia e jornalista. Presidente do Instituto Cidade Segura. Autor, entre outros, de “A Formação de Jovens Violentos: estudo sobre a etiologia da violência extrema” (Appris, 2016)

Leia ainda: *  Direita optou por radicalizar (André Singer, Folha) * Liberalismo e Democracia: união em crise (Abrucio, Valor).
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