terça-feira, 17 de julho de 2018

Toupeirização

A toupeirização consagra a surpresa do Neanderthal com a
possibilidade de andar sobre duas patas, mas não mais que isso.
De qualquer forma, nem com óculos a toupeira deixa
de ser toupeira...

Um interessante artigo de Otávio Pinheiro publicado na Folha mostra os primeiros sinais do processo de imbecilização em curso na formação dos estudantes brasileiros de todos os níveis e graus. Estimulados por uma ideologia do mais rasteiro utilitarismo, grupos financeiros - e interesses privados em geral - estão impondo às escolas projetos caracterizados por sua relação meramente instrumental com o conhecimento e transformando o ensino em espaço de funcionalidade profissional.

Os mitos do empreendedorismo e da formação para o mercado me parecem ser os carros-chefe dessa filosofia e junto a eles erguem-se as práticas didático-pedagógicas avalizadas pelo próprio MEC: educação à distância, precarização e intermitência do trabalho docente, modulação dos cursos, ênfase posta em torno de aprendizados de 2a ou 3a extração (*), desestímulo à pesquisa, tudo isso geralmente em dissociação com a  compreensão dos processos cognitivos da realidade - em qualquer campo de atuação. O resultado é o que o artigo de Otávio Pinheiro aponta: um baixo nível de letramento, uma extraordinária debilidade na capacidade de expressão oral e escrita, isto é, uma toupeirização do educando que faz a delícia de quem imagina que o esvaziamento filosófico e intelectual da Educação vai nos levar a algum lugar.

(*) o que eu chamo de aprendizado de 2a ou 3a extração é aquele tipo de conhecimento que enfatiza os processos cognitivos restritos à aplicabilidade de fórmulas de qualquer tipo: uma prática mecânica que prescinde de uma relação ontológica com o saber: acender fósforos, amarrar sapatos, subir escadas, acender e apagar luzes. Guardadas as proporções, são essas as dificuldades de aprendizagem "estimulantes" que os projetos empreendedores e voltados para o "mercado" trabalham em seus centros de formação. Uma lástima...

* Além do próprio artigo de Otávio Pinheiro, sugiro ainda a leitura de um texto meu publicado na revista Giz, do Sindicato dos Professores de São Paulo: * Empreendedorismo e formação acadêmica
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