terça-feira, 7 de agosto de 2018

Abajo la inteligencia, viva la muerte!

O episódio é conhecido e tem servido, ao longo da história contemporânea, como um símbolo do conflito irremediável entre, de um lado, a força do argumento, da reflexão e da sensibilidade do diálogo e, de outro, a brutalidade da ignorância, o culto da negação da divergência pelo aniquilamento do oponente. 

A frase que dá título a esta postagem foi proferida pelo general franquista José Millán Astray em 12 de outubro de 1936 na cerimônia de abertura do ano letivo na Universidade de Salamanca. Contam os historiadores e cronistas espanhóis que o militar, em resposta ao discurso feito por Miguel de Unamuno, um intelectual de extraordinário prestígio na Espanha e empolgado com as sucessivas vitórias das forças fascistas de Franco, teria proferido uma série de impropérios em louvor da brutalidade como valor absoluto, entre eles aquele que o fez passar tristemente à história: Morram os intelectuais! Viva a morte!

Miguel de Unamuno (1864-1936)
Unamuno, um pensador liberal conservador, não se conteve e registrou em sua fala dirigida a Astray todo o sentido do antagonismo que marcou a cerimonia:

Acabo de oír el grito de ¡viva la muerte! Esto suena lo mismo que ¡muera la vida! Y yo, que me he pasado toda mi vida creando paradojas que enojaban a los que no las comprendían, he de deciros como autoridad en la materia que esa paradoja me parece ridícula y repelente. De forma excesiva y tortuosa ha sido proclamada en homenaje al último orador, como testimonio de que él mismo es un símbolo de la muerte. El general Millán Astray es un inválido de guerra. No es preciso decirlo en un tono más bajo. También lo fue Cervantes. Pero los extremos no se tocan ni nos sirven de norma. Por desgracia hoy tenemos demasiados inválidos en España y pronto habrá más si Dios no nos ayuda. Me duele pensar que el general Millán Astray pueda dictar las normas de psicología a las masas. Un inválido que carezca de la grandeza espiritual de Cervantes se sentirá aliviado al ver cómo aumentan los mutilados a su alrededor. El general Millán Astray no es un espíritu selecto: quiere crear una España nueva, a su propia imagen. Por ello lo que desea es ver una España mutilada, como ha dado a entender.
Este es el templo del intelecto y yo soy su supremo sacerdote. Vosotros estáis profanando su recinto sagrado. Diga lo que diga el proverbio, yo siempre he sido profeta en mi propio país. Venceréis, pero no convenceréis. Venceréis porque tenéis sobrada fuerza bruta, pero no convenceréis porque convencer significa persuadir. Y para persuadir necesitáis algo que os falta en esta lucha, razón y derecho. Me parece inútil pediros que penséis en España.

Conto tudo isso em razão das sucessivas manifestações de grosseria política - para dizer o mínimo - feitas pelo candidato Jair Bolsonaro e que agora são secundadas pelas do seu escolhido para acompanhá-lo, como vice, na chapa das eleições presidenciais deste ano. Não uma, nem duas, mas por diversas vezes Bolsonaro tem emitido para a sociedade sinais de uma virulência inadmissível entre os países que procuram hoje construir, com muita dificuldade e determinação, o caminho para a Democracia, apresentando-se como defensor de torturadores, da própria tortura, da força bruta como lógica política. Não bastasse a triste justificativa de seu voto no ritual macabro que marcou o golpe do afastamento de Dilma Rousseff (assista aqui), o militar envereda pelo caminho perigoso da apologia do totalitarismo como modo de convivência entre os brasileiros.

Agora, sob o silêncio obsequioso - conivente e covarde - dos empresários, das lideranças políticas conservadoras, do Judiciário e de uma estranha condecendência da mídia - a "campanha" dessa extrema-direita ganha a colaboração do general da reserva Antonio Hamilton Mourão cujas declarações, (como se não fossem suficientes todas entradas anteriores de Mourão na cena política) já constrangeram o país inteiro, entre elas um ensaio antropológico recente de fazer corar os higienistas do século XIX.

Chamo Unamuno em meu apoio. Diz ele no momento em que encerra sua réplica a Astray:

Venceréis, pero no convenceréis. Venceréis porque tenéis sobrada fuerza bruta, pero no convenceréis porque convencer significa persuadir. Y para persuadir necesitáis algo que os falta en esta lucha, razón y derecho. Me parece inútil pediros que penséis en España.

Bolsonaro e Mourão:
discursos irresponsáveis
Não dá pra pensar um pouco no povo brasileiro, nos trabalhadores brasileiros, na civilidade dos brasileiros, no Brasil? 
Geisel e Figueiredo, a crueldade
instalada na Presidência da República

Sugiro estas leituras:

Mourão: um novo franco-atirador para o populismo conservador de Bolsonaro (El País). * Marielle, Herzog, Edson Luís: quando o luto vai às ruas (Carta Capital) * Se conhecêssemos nossa história, Bolsonaro não seria candidato (Carta Capital) * Em busca da verdade (inventário do blog).
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