quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Contrastes e descoberta

Dignidade de Fernanda Montenegro é sopro de resistência
que nos revela a nós mesmos
Passei boa parte da 3a feira às voltas com três boas reflexões sobre o momento brasileiro. Ao lado de notícias sobre o caráter venal de Bolsonaro e a queda de sua popularidade, sobre a hipocrisia do Estadão que adverte para o voto irracional dos empresários que pretendem apoiar o capitão (justamente o Estadão que não faz outra coisa senão adular a ruptura institucional em que estamos mergulhados há 2 anos), tive a oportunidade de ler a entrevista que Fernanda Montenegro deu ao jornal El País e dois ensaios sobre o fascismo: um deles, publicado na revista Cult, de autoria de Márcio Sotelo Felippe, em torno desse esvaziamento da sensibilidade diante da morte que mostra a adesão a um defensor da tortura entre os eleitores brasileiros (ainda que o autor não explicite isso no texto); o outro sobre a mediocridade fascista de Michel Temer retratada pelo psicanalista Tales Ab'Saber em livro resenhado na revista Carta Capital por Nirlando Beirão.

Pode parecer muita coisa, mas não é. A leitura dos três textos é facilitada por uma narrativa comum a todos eles, ainda que resultado de um mero acaso: a interpretação desse difícil e complexo momento que o Brasil está vivendo e diante do qual uma bela análise é, eventualmente, sintoma de energia e reposição de esperanças. Alguma coisa como a leitura transformada num ato de encontro e de cumplicidade à semelhança que os meetings da esquerda tiveram nos anos da ditadura: a fruição do discurso como resistência. Não é outro o sentimento que me transmitiu a energia cívica de Fernanda Montenegro ao afirmar que "o Brasil não vai se entregar"; ou a perspectiva com que Hannah Arendt viu a banalidade em que o mal absoluto do nazismo se transformou no universo sem esperanças e amedrontado dos alemães nos anos 20-40; ou ainda aquela que considero a melhor interpretação sobre a persona de Michel Temer como o homem sem nenhum caráter (ou como o pior deles).

Talvez esse seja o ganho do mergulho profundo que estamos fazendo nesse momento da história: uma busca do reconhecimento do que efetivamente  somos.
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