sábado, 11 de agosto de 2018

O debate como simulacro da representação política

O 2o. maior partido do Brasil e o líder de todas as pesquisas eleitorais em todos os cenários, impedidos de participar da discussão pública promovida pela mídia, deixam o debate da Band na condição de uma farsa
Encerrada a farsa do debate promovido pela Band/Uol e diante da constatação de que o Brasil esteve diante de um simulacro, minha sugestão é a de que se faça um mergulho nas análises que nos permitem visualizar o jogo das forças conservadoras que querem, a despeito da encenação formal, manipular o resultado das eleições.

O dado fundamental aqui me parece ser o da representação: o país encontra-se conflagrado diante de dois projetos que me parecem bastante claros: um deles, o das variações da direita, quer basicamente consolidar o resultado da armação golpista vitoriosa em abril de 2016 quando a Câmara autorizou o afastamento da presidente Dilma Rousseff. É o modelo estamental e neoliberal em toda a sua dinâmica socialmente excludente, privatista, entreguista e autoritária. Pessoalmente, não tenho dúvidas de que os grupos sociais articulados em torno disso - do conservadorismo liberal ao ultraconservadorismo neofascista - estão dispostos a romper com a ordem institucional caso se vejam ameaçados pelo resultado das eleições. 

O outro projeto tem extração socialista, mas não o é em toda a sua concepção. Pode ser visto como um conjunto de variações da esquerda, mas tem como núcleo a percepção de que nenhuma saída para a crise brasileira pode prescindir de medidas desenvolvimentistas que recoloquem o Estado como ente normativo das atividades econômicas e sociais: nada se fará sem mecanismos que atenuem as disparidades sociais e que protejam o Brasil dos interesses privados, os nacionais e os estrangeiros.

O debate da Band, para que conseguisse ser expressão desse arco de possibilidades analíticas e propositivas, em hipótese alguma poderia ter se realizado. Sem garantir a presença do PT, com ou sem Lula - mas em especial sem o ex-presidente, quaisquer que fossem os artifícios jurídicos (inconstitucionais) usados como justificativa para sua ausência -, o que ocorreu foi uma simulação. Mais que isso: esse déficit de representação interditou a essência da discussão e tornou o debate inócuo, ainda que midiatizado.

A sociedade brasileira vai ter que se superar para resgatar a democracia que nossa burguesia insiste em deixar incompleta.

Textos sugeridos: * Eu quero democracia, não impunidade (texto de Lula no NYTimes) * A estratégia do PT: ir com Lula até onde der (DW) * Por que Fernando Haddad e Manuela vão ganhar (Poder 360) * Sem Lula, Bolsonaro mantém liderança, mas é campeão em rejeição (Infomoney)* O caminho para derrotar Bolsonaro é óbvio, mas há quem prefira o Apocalipse (The Intercept) * Alckmin ou Bolsonaro, tanto faz (The Intercept) * O silêncio da gente (DCM) * A Era da Desconfiança (Piauí) * Um golpe estamental (GGN) * Discursos de Hitler não ajudaram os nazistas a ganhar (El País).

Enquanto isso, o cabo Daciolo: * Um histriônico efeito da legislação eleitoral (El País) * De "fruto de um Deus vivo" a líder de greve (Uol)

Foto: Nelson Antoine, Uol/Folha Press, via The Intercept
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