quinta-feira, 2 de agosto de 2018

O que somos e o que não somos

(Paulo Kliass, Outras Palavras)

Eis aí o paradoxo que explica a dificuldade radical em superar o atraso da nossa modernização: leio no site do Nassif que os eleitores brasileiros chegam agora a 147,3 milhões, com um aumento de 3,14% em relação a 2014. Posso estar enganado, mas levando em conta a abrangência que esse número tem em relação aos diversos perfis sociais da população acredito que estamos diante de um dos maiores colégios eleitorais do mundo, se não for o maior: só ficam de fora dele os menores de 16 anos. Olho em volta e não vejo coisa parecida. Se existe, não vejo.

Onde está o paradoxo? Essa numerária toda não tem conseguido traduzir uma democracia para valer já que o custo social e histórico para que chegássemos a exibir essa base eleitoral gigantesca não se verifica na hegemonia efetiva do povo brasileiro sobre os resultados das escolhas que ele mesmo faz. O maior exemplo é o impasse de representação que estamos vivendo desde 2016: uma articulação ilegal golpista que afastou a presidente eleita Dilma Rousseff da presidência da República, e a prisão - também ilegal - da maior liderança popular que nosso país construiu desde Vargas, o ex-presidente Lula.

Nossas elites - incluídas aqui nessa generalidade os estamentos que dispõem de poder político institucional efetivo e não apenas formal (empresários, formadores de opinião, chefes políticos) - não conseguem conviver com as próprias garantias constitucionais que deveriam estruturar o governo e o Estado e, em razão disso, mantém o controle dos mecanismos informais da dominação oligárquica - em que pese o tamanho do colégio eleitoral sobre o qual ela vive: na mídia, na Educação, no quadro partidário, nas alianças que se formam à margem desse quadro. Tudo isso constitui um complexo ideológico e instrumental que nos deixa mais próximos de uma republiqueta da América Central dos anos 40-50 do que de um país que quer ostentar sua presença entre os dez maiores PIBs do mundo. É ou não é um paradoxo que um sujeito grosseiro como Bolsonaro - absolutamente despreparado para qualquer função - esteja onde está na corrida eleitoral? É ou não é um paradoxo o arco de partidos conservadores - o "centrão" - que apoia essa espécime de oportunismo chamado Geraldo Alckmin? E o Doria? Há maior excrescência pré-moderna do que um sujeito desses, um coronelzinho mentiroso que se diz empresário de coisa alguma; que se diz "trabalhador", mas que nunca teve um emprego?

Estou às voltas com a antologia de Maria Rita Kehl publicada pela editora Boitempo - Bovarismo brasileiro. Os textos fazem uma viagem maravilhosa em torno de uma dúvida que está longe de ser retórica: nosso bovarismo (não somos aquilo que pensamos ser) provocou uma cisão irremediável do brasileiro "com as feridas sociais do país", fato que facilita a dominação secular do opressor (esse 1% que concentra em suas mãos 30% da renda e que mantém mais de 53 milhões de brasileiros em condições de pobreza absoluta) pois não conseguimos ver direito o que de fato somos?

As eleições que vão acontecer ainda este ano - se acontecerem, isto é, se essas elites não deixarem de lado o pudor e resolverem acabar de uma vez com essa longa-lenga eleitoral que acaba exibindo-a de alguma forma - estão, desde já, pondo à prova esse enigma, e as primeiras respostas começam a surgir relacionadas com a ficcionalização do cenário político construída de maneira crescente no imaginário político da sociedade visibilizada pela mídia através do ocultamento da resistência ao golpe (ufa!). Todas elas (as respostas) estão associadas à gradativa supressão informal das liberdades públicas pela democracia da ilegalidade promovida pelos grupos neofascistas e pelo silêncio complacente que o relativismo liberal mantém em relação a eles - nos jornais, no Judiciário, nas universidades privadas e nas escolas sem partido, no que resta de Parlamento comprometido com as demandas sociais e com aquilo que sobrou de defesa da soberania nacional...

Sei não... Chico Buarque - uma das vítimas desse processo - falou em Rosa dos Ventos na "enchente amazônica... na multidão vendo atônita, ainda que tarde, o seu despertar"... Torço para que o vaticínio dele pipoque e aconteça de cima a baixo antes que nossa capacidade de indignação também seja amortecida ou se perca.

Leituras sugeridas, além da ótima coletânea de Maria Rita Kehl, já referida acima: * Censura galopante empurra o Brasil de volta ao passado (The Intercept) * No país onde os negros são minoria nas telas, anúncio d'O Boticário faz explodir racismo nas redes (The Intercept) * A violência do golpe contra a Educação (do blog) * Plenário vazio da Câmara debate consequências da venda da Embraer (GGN) * Não importa quem ocupará o Planalto, o Congresso se prepara para seguir o mesmo (El País) * Desonrosa linha de frente (do blog) * Heróis do mau caráter (do blog) * Fãs de Bolsonaro atacam jornalistas que participaram do Roda Viva (Carta Capital).
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