domingo, 9 de setembro de 2018

Contra a vontade popular

Mourão dá o recado: "os profissionais da violência somos nós"
(leia aqui o artigo de Eliane Brum, no El País)

Articulação de ultradireita blinda Bolsonaro 

Francisco Bicudo*

Conservadores querem uma democracia sob tutela para que nenhuma estrutura de um país falido e profundamente desigual seja mudada


São mais do que fartas as evidências que revelam uma operação casada entre os diferentes atores do golpe de 2016 para fazer do capitão das trevas o candidato do sistema nas eleições, já atuando para movimentar inclusive as placas tectônicas que irão se chocar no segundo turno. 

Ao perceber que Geraldo Alckmin tem enormes dificuldades para se posicionar como um candidato dois dígitos nas pesquisas, mesmo com um caminhão de tempo na televisão, e já sabendo que Henrique Meirelles não passa de ficção eleitoral, os donos da Globo reuniram-se recentemente com Bolsonaro, para ali abençoá-lo como o candidato do sistema, o anti-Lula que vai aprofundar no Brasil o projeto ultra-liberal com viés fascistóide. 

Os resultados do acerto foram imediatos - entrevista nos moldes de tribunal da santa inquisição com Fernando Haddad e convescote entre amigos com o general Mourão, na Globonews. Estarrecedor observar que Miriam Leitão e Fernando Gabeira, vítimas dos horrores da ditadura, ouviram calados e enternecidos o general desfilar seu rosário de elogios aos anos de chumbo. 

No Jornal Nacional pós-ataque ao candidato do PSL, Bonner decretou que 'a democracia brasileira está manchada de sangue'. A reboque, jornais impressos ajudam a vitimizar Bolsonaro e a torná-lo palatável a segmentos mais expressivos da sociedade brasileira (superando os limites dos já convertidos). Enquanto O Estado de S. Paulo estampa em manchete que 'legitimidade do eleito pode ser contestada' (a fala é do general Villas Boas e a contestação dependerá de quem for eleito, obviamente), a Folha de S. Paulo entrevista um cientista político que afirma que 'Bolsonaro não é uma ameaça à democracia', investindo na linha do 'políticos são todos iguais'. 

Protagonistas do processo eleitoral, como jamais tínhamos visto depois de 1988, as Forças Armadas dizem, nada sutilmente, quem aceitam e não aceitam como candidato. O Judiciário age para dar verniz supostamente democrático a essa seletividade, mantendo arbitrariamente encarcerado em Curitiba a maior liderança popular do país, favorito a vencer as eleições, com chances reais de resolver a parada ainda no primeiro turno. O ministro Fachin, que diz no TSE que resolução da ONU deve ser cumprida, nega o próprio voto quando analisa recurso de Lula encaminhado ao STF. Juízes eleitorais promovem uma verdadeira caçada contra os programas eleitorais do PT, criando todos os artifícios e artimanhas possíveis para manter Lula calado e bem longe da campanha - mesmo que como apoiador ou eleitor. 

Enquanto isso, a ação por crime de racismo contra Bolsonaro segue sem ser julgada, por conta de um providencial pedido de vistas. Fechando o circuito, o posto ipiranga Paulo Guedes abre canais de diálogo com o deus mercado, para dar garantias de que, se eleito, Bolsonaro continuará, com velocidade acelerada e a legitimidade dos votos, a aplicar o receituário ultra-liberal, mesmo que seja preciso perseguir e silenciar resistências sociais e ainda que as bombas de gás lacrimogênio 'precisem' explodir. Wall Street também já deu sinal verde para o capitão. 

Não tenho elementos para afirmar que o ataque sofrido aumentará o percentual de votos de Bolsonaro. Não me parece que a sociedade, ao menos até aqui, tenha abraçado e reverberado o clima de comoção que se tentou simular. Fato é, no entanto, que, sem precisar mais fazer campanha de rua ou participar de debates, alimentando seus cães raivosos das redes sociais, Bolsonaro estará no segundo turno. 

Nossa tarefa histórica, portanto, é garantir que uma candidatura progressista, democrática e popular possa confrontá-lo nesse embate final. Dadas as condições da disputa, penso, Haddad-Manu, com apoio de Lula, é a chapa que reúne as melhores condições e agenda para travar esse bom combate. Lamento o maniqueísmo, dele procuro sempre escapar, mas dessa vez será mesmo a disputa entre a barbárie e a civilização. Seremos todos e todas chamados a fazer nossa escolha. Terá de ser assim. Será preciso derrotar o fascismo.

Leia os textos que fazem referência a temas indicados na análise de Bicudo: * Legitimidade de novo governo pode até ser questionada (entrevista Gal. Villas Bôas, Estadão) * General Mourão, vice de Bolsonaro, admite o autogolpe (Diário do Centro do Mundo) * Bolsonaro não é o vilão da eleição, diz cientista político (Jorge Zaverucha, Folha de S. Paulo) * Por que tanta gente em Wall Street torce por uma vitória de Bolsonaro (Folha) * A liquidação geral de Paulo Guedes (Paulo Kliass, Outras PalavrasBolsonaro e João Roberto Marinho se reúnem na Globo (MSN) * O tribunal da inquisição do Jornal Nacional (vídeo, GGN) * PGR não vê crime em fala de Bolsonaro (TerraPor que Fernando Haddad e Manuela D'Ávila vão ganhar (André Forastieri, Poder 360).

Leia ainda as postagens deste blog: * Conspiração contra o Brasil * O Globo: insensatez, covardia e mentira * Repúdio ao atentado contra Bolsonaro, mas...

* Francisco Bicudo, jornalista e professor
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